Mateus Cavarzan

Vacina pneumocócica 20-valente (VPC20) no SUS: esquema de rotina e situações especiais

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

A partir de junho de 2026 o Programa Nacional de Imunizações começou a trocar a VPC10, a VPC13 e a VPP23 pela vacina pneumocócica conjugada 20-valente. O motivo está na vigilância: entre os isolados de doença pneumocócica invasiva no Brasil, os sorotipos mais frequentes são o 19A e o 3, que a VPC10 não cobre. Na rotina, enquanto houver estoque de VPC10, o esquema é sequencial: VPC20 aos 2 meses, VPC10 aos 4 meses e reforço com VPC20 aos 12 meses.

Para as 21 condições clínicas da Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais, a Nota Técnica 45/2026 define o esquema pela idade de início e as regras de transição para quem já recebeu VPC10, VPC13 ou VPP23. Quem recebe a VPC20 não recebe mais a VPP23. Os flashcards cobrem a rotina, os esquemas da RIE, a transição e as características da vacina que costumam cair na prova.

O esquema em cinco situações

SituaçãoEsquemaDetalhe
Rotina: criança que começa aos 2 mesesD1 com VPC20 aos 2 meses, D2 com VPC10 aos 4 meses e reforço com VPC20 aos 12 meses.Intervalo de 60 dias entre as doses; o reforço vem pelo menos 60 dias depois da D2. Quem começa a partir de 6 meses pode usar intervalo mínimo de 30 dias em situação excepcional.
Rotina: 12 meses a 4 anos, 11 meses e 29 dias, conforme o históricoSem nenhuma dose: dose única de VPC20. Esquema básico completo: 1 reforço de VPC20. Só a D1: 1 reforço de VPC20.O reforço considera 60 dias depois da D2 (ou da D1, se foi a única dose) e pode ser feito até 4 anos, 11 meses e 29 dias.
RIE: não vacinado, conforme a idade de início2 a 6 meses: 3 doses (0, 2 e 4 meses) e reforço aos 12 a 15 meses. 7 a 11 meses: 2 doses (0 e 2 meses) e reforço aos 12 a 15 meses. 12 a 59 meses: 2 doses (0 e 2 meses). 5 anos ou mais, inclusive adultos: dose única.Exceções à dose única: transplante de células-tronco hematopoéticas e terapia CAR-T.
RIE: esquema completo com VPC10 ou VPC13, sem VPP231 dose de VPC20.Pelo menos 8 semanas depois da última dose de vacina conjugada. Sem necessidade de outras doses de pneumocócica.
RIE: já recebeu VPP23Com 2 doses de VPP23: considerado vacinado, sem VPC20. Com 1 dose de VPP23: pode receber 1 dose de VPC20.Para a dose de VPC20, intervalo mínimo de 1 ano da VPP23 e de 8 semanas da última conjugada. Quem recebe VPC20 não recebe mais VPP23.

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O que mudou

  1. 01

    Quando a VPC20 entrou no PNI e o que ela substitui?

    A vacinação oficial começou em junho de 2026, e estados e municípios puderam iniciar assim que as doses chegaram. Ela inicia a transição das três vacinas pneumocócicas usadas até então: VPC10 (rotina), VPC13 (situações especiais) e VPP23 (situações especiais e alguns grupos da rotina, como idosos acamados ou institucionalizados e indígenas). Na rotina, enquanto houver estoque de VPC10, o esquema é sequencial com as duas conjugadas.

  2. 02

    Quais sorotipos de pneumococo a VPC20 cobre?

    Vinte: 1, 3, 4, 5, 6A, 6B, 7F, 8, 9V, 10A, 11A, 12F, 14, 15B, 18C, 19A, 19F, 22F, 23F e 33F.

  3. 03

    Qual dado da vigilância justificou a troca da VPC10 pela VPC20?

    De 2018 a 2023, entre 5.055 isolados de pneumococo de doença invasiva sorotipados pelo Instituto Adolfo Lutz, os mais frequentes foram o 19A e o 3, que a VPC10 não cobre. Em 2024 o perfil se manteve: 19A em 20,0% e 3 em 18,3% das amostras.

  4. 04

    Como foi a história da vacinação pneumocócica no PNI antes da VPC20?

    VPP23 desde 1992 para grupos com condições clínicas específicas, nos Crie. VPC7 nos Crie de 2003 a 2010. VPC10 no Calendário Nacional de Vacinação desde 2010, com redução de 55% a 60% da doença invasiva por sorotipos vacinais em menores de 2 anos.

  5. 05

    Qual é a meta de cobertura e qual é o grupo prioritário da rotina?

    Vacinar pelo menos 95% da população-alvo. O grupo prioritário são as crianças menores de 2 anos, estimadas em 4.778.542 em 2026 (Sinasc 2024).

Rotina

  1. 06

    Qual é o esquema básico de rotina da vacina pneumocócica no período de transição?

    Aos 2 meses, D1 com VPC20. Aos 4 meses, D2 com VPC10. Aos 12 meses, reforço com VPC20. Intervalo de 60 dias entre as doses, e o reforço com intervalo mínimo de 60 dias após a D2.

  2. 07

    Qual é o intervalo mínimo entre as doses em situação excepcional?

    Trinta dias, em situações excepcionais, entre as doses do esquema básico: o guia cita a criança que inicia o esquema a partir de 6 meses e repete o mínimo de 30 dias nas crianças de 5 a 11 meses com esquema incompleto. O intervalo padrão é de 60 dias, e o reforço é sempre 60 dias após a D2, sem mínimo de 30.

  3. 08

    Criança de 5 a 10 meses sem o esquema básico completo. O que fazer?

    Se já tem a D1 com VPC10: administrar a D2 com VPC20. Sem histórico vacinal: duas doses, D1 com VPC20 e D2 com VPC10. Nos dois casos, reforço com VPC20 aos 12 meses, 60 dias após a D2; se não for possível, até 4 anos, 11 meses e 29 dias.

  4. 09

    Criança de 11 meses sem o esquema básico completo. O que fazer?

    Se já tem a D1 com VPC10: administrar a D2 com VPC20. Sem histórico vacinal: administrar a D1 com VPC20, com intervalo de 60 dias (mínimo de 30 em situação excepcional) entre as doses. Em seguida, 1 reforço com VPC20 o mais precocemente possível, considerando 60 dias após a D2; se não for possível, até 4 anos, 11 meses e 29 dias. O guia não especifica qual vacina seria a D2 da criança de 11 meses sem histórico.

  5. 10

    Criança de 12 meses a 4 anos, 11 meses e 29 dias. Qual é a conduta conforme o histórico?

    Esquema básico completo (D1 e D2): 1 reforço com VPC20, 60 dias após a D2. Só a D1: 1 reforço com VPC20, 60 dias após a D1. Sem histórico vacinal: dose única de VPC20. O reforço pode ser feito até 4 anos, 11 meses e 29 dias.

  6. 11

    Durante a transição, em que doses entra a VPC20 e em que doses entra a VPC10?

    Enquanto houver estoque de VPC10, a VPC20 é usada na primeira dose do esquema primário e no reforço, e a VPC10 na segunda dose. A VPC20 também pode completar o esquema de quem começou com VPC10.

  7. 12

    O que muda para idosos acamados ou institucionalizados e para povos indígenas?

    Enquanto houver estoque de VPP23, pessoas de 60 anos ou mais não vacinadas que vivem acamadas ou institucionalizadas, e indígenas a partir de 5 anos sem comprovação de vacina conjugada, continuam a receber a VPP23. Esgotado o estoque, passam a receber a VPC20 na rotina.

Situações especiais (RIE)

  1. 13

    Quais são as 21 condições clínicas com indicação de VPC20 na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais?

    HIV/aids; câncer em atividade ou até a alta; transplante de órgão sólido; transplante de células-tronco hematopoéticas; terapia CAR-T; asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas; imunodeficiências primárias ou erros inatos da imunidade; fibrose cística; fístula liquórica e derivação ventriculoperitoneal; imunodepressão terapêutica; implante coclear; nefropatias crônicas, hemodiálise e síndrome nefrótica; pneumopatias crônicas (exceto asma intermitente ou persistente leve); asma persistente moderada ou grave; cardiopatias crônicas; hepatopatias crônicas; doenças neurológicas crônicas incapacitantes; trissomias; diabetes; doenças de depósito; prematuros de até 36 semanas e 6 dias, até 23 meses.

  2. 14

    Qual é o esquema de VPC20 na RIE para quem nunca recebeu vacina pneumocócica, conforme a idade de início?

    De 2 a 6 meses: 3 doses (0, 2 e 4 meses) e 1 reforço aos 12 a 15 meses. De 7 a 11 meses: 2 doses (0 e 2 meses) e 1 reforço aos 12 a 15 meses. De 12 a 59 meses: 2 doses (0 e 2 meses). A partir de 5 anos, inclusive adultos: dose única, exceto no transplante de células-tronco hematopoéticas e na terapia CAR-T.

  3. 15

    Como fica a vacinação pneumocócica no transplante de células-tronco hematopoéticas?

    Quem foi vacinado antes do transplante é considerado não vacinado. Para crianças a partir de 12 meses e adultos submetidos ao transplante, o esquema é de 3 doses de VPC20 com intervalo de 2 meses.

  4. 16

    Criança da RIE com esquema incompleto de VPC10. Como completar?

    Até 4 anos, completar com VPC20 conforme o Quadro 2 da nota técnica (indicações clínicas 12 a 21), de acordo com o número de doses de VPC10 recebidas: quem começou aos 2 meses recebe VPC20 na D2, na D3 e no reforço, com dose adicional aos 15 a 59 meses; quem começou aos 4 meses recebe VPC10 na D2 e VPC20 na D3 e no reforço. Nas indicações 1 a 11, o alvo é pelo menos duas doses de VPC20 no primeiro ano e um reforço no segundo (esquema 2+1). Crianças de 1 a 4 anos com esquema completo de VPC10, ou com três doses no primeiro ano sem o reforço aos 12 meses, recebem duas doses de VPC20 com intervalo de 8 semanas.

  5. 17

    Criança da RIE que recebeu VPC13. Como fica a transição?

    Até 4 anos, com esquema incompleto de VPC13, completar com VPC20 conforme o Quadro 3 (indicações clínicas 1 a 11). Quem começou aos 2 meses recebe VPC13, depois VPC20 nas demais doses e no reforço, com dose adicional aos 15 a 59 meses. Quem completou as quatro doses de VPC13 entre 12 meses e 4 anos recebe uma dose adicional de VPC20.

  6. 18

    Paciente da RIE que já recebeu VPP23. Precisa de VPC20?

    Com duas doses de VPP23: considerado vacinado, sem dose adicional de VPC20. Com apenas uma dose de VPP23: pode receber uma dose de VPC20, respeitando intervalo mínimo de 1 ano da VPP23 e de 8 semanas da última conjugada. Com esquema completo de VPC10 ou VPC13 e sem VPP23: uma dose de VPC20, pelo menos 8 semanas após a última conjugada. Nessas situações não há necessidade de outras doses.

  7. 19

    Quem recebeu a VPC20 ainda recebe a VPP23 depois? E quando a VPC20 começa a ser usada na RIE?

    Não: indivíduos vacinados com a VPC20 não devem mais receber a VPP23. A VPC20 só começa a ser administrada na RIE depois de esgotados os estoques de VPC13 e VPP23.

  8. 20

    Como registrar a dose de VPC20 aplicada em estratégia especial?

    No SI-PNI, no e-SUS APS ou em sistema próprio integrado à RNDS, de forma nominal, com CPF ou CNS. Nas estratégias especiais são obrigatórios os campos de motivo de indicação (CID) e de especialidade do profissional prescritor.

A vacina

  1. 21

    Qual é a composição e a apresentação da VPC20 usada no SUS?

    Seringa preenchida de 0,5 mL, via intramuscular, fabricada pela Pfizer e adquirida pelo fundo rotatório da Opas. Cada dose tem 2,2 µg de polissacarídeo de cada sorotipo (4,4 µg do 6B), conjugados a cerca de 51 µg de proteína CRM197, com fosfato de alumínio entre os excipientes (é o adjuvante da formulação). A bula indica a vacina de 6 semanas a 18 anos e para adultos a partir de 18 anos.

  2. 22

    Quais são a contraindicação e as principais precauções da VPC20?

    Contraindicada em quem teve reação alérgica grave a dose prévia de vacina pneumocócica conjugada ou a qualquer componente, incluindo o toxoide diftérico. Adiar em doença febril aguda moderada a grave (resfriado não adia). Em distúrbios de coagulação, cautela, com via subcutânea se o benefício superar inequivocamente o risco. Em prematuros de 28 semanas ou menos ainda hospitalizados, monitorar apneia por pelo menos 48 horas, sem adiar a vacinação.

  3. 23

    Como conservar a VPC20 e quanto tempo ela tolera fora da faixa de 2 °C a 8 °C?

    Entre 2 °C e 8 °C, sem congelar, com a seringa na horizontal para reduzir o tempo de ressuspensão. Validade de 24 meses. Excursões cumulativas entre 8 °C e 25 °C são toleradas até 96 horas, e entre 0 °C e 2 °C até 72 horas; ao fim desses períodos a vacina deve ser usada ou descartada.

  4. 24

    A VPC20 pode ser aplicada no mesmo dia que outras vacinas do calendário?

    Sim, na mesma ocasião que outras vacinas e medicamentos, com seringas e agulhas diferentes e em locais anatômicos distintos. Não misturar com outra vacina na mesma seringa.

  5. 25

    Quais eventos adversos têm monitoramento intensificado após a VPC20, e qual é o prazo de notificação dos graves?

    Anafilaxia, convulsões (inclusive febris), episódio hipotônico-hiporresponsivo e apneia, esta relevante em prematuros. Esavi graves são notificados em até 24 horas no e-SUS Notifica (módulo Esavi), com investigação iniciada em até 48 horas. As reações mais comuns em lactentes são irritabilidade, sonolência, dor local, redução do apetite, vermelhidão e inchaço, além de febre em parte das crianças.

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Fonte

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Guia técnico para introdução da vacina pneumocócica 20-valente (conjugada) no Programa Nacional de Imunizações. 1. ed., versão eletrônica preliminar. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 27 p. Cards da RIE: Nota Técnica nº 45/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS (SEI 0055151160, assinada em 13 e 14/05/2026). Texto integral do guia técnico (PDF, gov.br)

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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