Critérios de elegibilidade da OMS para contracepção: o que mudou na 6ª edição (2025)
Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .
Em novembro de 2025 a Organização Mundial da Saúde publicou a 6ª edição dos critérios médicos de elegibilidade para o uso de contraceptivos, dez anos depois da 5ª edição. O documento classifica cada par de condição clínica e método em quatro categorias, de 1 (sem restrição) a 4 (risco inaceitável). Nesta revisão o grupo de desenvolvimento reviu seis tópicos, com mais de cem recomendações, e reafirmou as cerca de duas mil restantes.
As mudanças de categoria são poucas e objetivas. O injetável só de progestagênio na lactante com menos de 6 semanas passou de 3 para 2. A nevirapina e os inibidores de protease com ritonavir passaram de 2 para 1 nos métodos hormonais (o DMPA já era 1). O dolutegravir e a profilaxia pré-exposição ao HIV entraram pela primeira vez, ambos em categoria 1. Em relação ao texto de 2015, os DIUs em mulheres com alto risco de HIV também passaram de 2 para 1, incorporando a orientação da OMS de 2019. O uso da pílula de emergência mais de uma vez no ciclo continua em categoria 1, agora com evidência revisada. Os flashcards cobrem o que a prova costuma cobrar: categoria por categoria, com a referência de cada uma.
Antes e agora
| Ponto | 5ª edição (2015) | 6ª edição (2025) |
|---|---|---|
| Injetável só de progestagênio (DMPA ou NET-EN) na lactante com menos de 6 semanas | Categoria 3: em geral não usar. Pílula só de progestagênio e implantes eram categoria 2. | Categoria 2: em geral pode usar. Pílula e implantes seguem em 2. A partir de 6 semanas, todos em 1. |
| Nevirapina com contraceptivos hormonais | Categoria 2 para combinados, pílula só de progestagênio, NET-EN e implantes; DMPA era 1. | Categoria 1 para todos os métodos hormonais. O efavirenz segue em 2 (DMPA em 1). |
| Inibidores de protease com ritonavir | Categoria 2 para combinados, pílula só de progestagênio, NET-EN e implantes; DMPA era 1. | Categoria 1 para todos os métodos hormonais. |
| Dolutegravir | Não constava. Dos inibidores de integrase, só o raltegravir estava listado, em categoria 1. | Incluído, em categoria 1 para todos os métodos hormonais. Para o DIU vale a regra geral da TARV: 2 ou 3 para iniciar, conforme o estágio clínico do HIV. |
| Profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) | Não constava. | Tema novo. Tenofovir e emtricitabina oral, anel de dapivirina e cabotegravir injetável: categoria 1 para todos os métodos, incluindo os DIUs. |
24 flashcards para revisar
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A diretriz
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01
O que são os critérios médicos de elegibilidade (MEC) da OMS e o que a 6ª edição trouxe?
São recomendações sobre a segurança de cada método contraceptivo diante de condições clínicas e características pessoais, para servir de base a protocolos nacionais. A 6ª edição foi publicada em novembro de 2025, dez anos depois da 5ª (2015). O grupo de desenvolvimento reviu seis tópicos, com mais de cem recomendações, e reafirmou as cerca de duas mil recomendações restantes em julho de 2024.
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02
Quais foram os seis tópicos revisados para a 6ª edição dos MEC?
Quatro já existentes: contraceptivos só de progestagênio na lactante, DIU na lactante, contraceptivos hormonais em mulheres em terapia antirretroviral e uso repetido da pílula de emergência. Dois novos: profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e doença inflamatória intestinal.
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03
O que significa cada uma das quatro categorias dos MEC?
Categoria 1: sem restrição ao uso do método. Categoria 2: as vantagens em geral superam os riscos teóricos ou comprovados. Categoria 3: os riscos em geral superam as vantagens. Categoria 4: risco inaceitável à saúde se o método for usado.
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04
Como as quatro categorias são simplificadas onde o julgamento clínico é limitado, como em serviços de base comunitária?
Em duas: categorias 1 e 2 significam que a mulher pode usar o método; categorias 3 e 4, que ela não é elegível. Com bons recursos clínicos, a categoria 3 permite o uso quando não há método mais adequado disponível ou aceitável, com acompanhamento cuidadoso.
Amamentação
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05
Lactante com menos de 6 semanas de pós-parto quer o injetável trimestral (DMPA). Qual é a categoria na 6ª edição e qual era antes?
Categoria 2 para DMPA e NET-EN. Na 5ª edição (2015) os injetáveis só de progestagênio eram categoria 3 nessa fase. É a única mudança de categoria no tópico da amamentação.
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06
Qual a categoria da pílula só de progestagênio e dos implantes na lactante, por período?
Menos de 6 semanas: categoria 2. De 6 semanas a menos de 6 meses (amamentação predominante): categoria 1. Seis meses ou mais: categoria 1. Essas categorias não mudaram em relação a 2015.
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07
Que evidência sustentou a mudança do injetável na lactante com menos de 6 semanas?
Um total de 61 estudos, 9 deles novos (2 de implantes, 2 de injetáveis e 5 de pílulas), sem impacto negativo consistente no desempenho da amamentação nem na saúde do lactente. Dois estudos novos não mostraram prejuízo quando o implante foi iniciado antes de 6 semanas. A evidência é limitada em lactentes de alto risco (prematuros e baixo peso).
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08
Qual a categoria dos contraceptivos hormonais combinados na lactante, por período?
Menos de 6 semanas: categoria 4. De 6 semanas a menos de 6 meses: categoria 3. Seis meses ou mais: categoria 2. Sem mudança em relação à 5ª edição.
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09
Quando o DIU pode ser inserido no pós-parto, com ou sem amamentação?
Menos de 48 horas, inclusive logo após a saída da placenta: DIU de cobre categoria 1; DIU de levonorgestrel categoria 2 na lactante e 1 na não lactante. De 48 horas a menos de 4 semanas: categoria 3 para os dois. Quatro semanas ou mais: categoria 1. Sepse puerperal: categoria 4. O tópico foi revisado e as categorias foram mantidas.
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10
O que a evidência diz sobre expulsão e perfuração do DIU no pós-parto e na lactante?
A inserção imediata do DIU de cobre, sobretudo pós-placentária, tem menos expulsão do que a inserção tardia no pós-parto, e a pós-placentária na cesariana tem menos expulsão do que a vaginal. A amamentação pode aumentar o risco de perfuração uterina, mas o risco absoluto é baixo. Perfuração e infecção não aumentam com a inserção em qualquer momento do pós-parto. Um ensaio randomizado associou a inserção imediata do DIU de levonorgestrel a menor duração da amamentação, achado não confirmado por outros dois ensaios.
Terapia antirretroviral
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11
Mulher em TARV com inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeo (tenofovir, lamivudina, zidovudina, abacavir). Qual a categoria dos métodos hormonais?
Categoria 1 para todos: combinados, pílula só de progestagênio, injetáveis e implantes. Os análogos de nucleosídeo não parecem ter risco significativo de interação com contraceptivos hormonais.
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12
Qual a categoria dos contraceptivos hormonais em quem usa efavirenz?
Categoria 2 para combinados, pílula só de progestagênio, NET-EN e implantes; DMPA em categoria 1. Não mudou. Há dados de interação que podem reduzir a eficácia do contraceptivo: queda dos níveis hormonais com a pílula combinada e evidência limitada e inconsistente de menor eficácia dos implantes.
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13
O que mudou para a nevirapina na 6ª edição?
Passou para categoria 1 em todos os métodos hormonais. Na 5ª edição era categoria 2 para combinados, pílula só de progestagênio, NET-EN e implantes (DMPA já era 1). Etravirina e rilpivirina seguem em categoria 1.
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14
O que mudou para os inibidores de protease (ritonavir e atazanavir, lopinavir ou darunavir potencializados por ritonavir)?
Passaram para categoria 1 em todos os métodos hormonais. Em 2015 eram categoria 2 para combinados, pílula só de progestagênio, NET-EN e implantes, e 1 para DMPA. A revisão não encontrou risco significativo de interação.
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15
Qual a categoria dos inibidores de integrase, e qual deles é novo na lista?
Raltegravir e dolutegravir: categoria 1 para todos os métodos hormonais. O dolutegravir foi incluído nesta edição; em 2015 só o raltegravir constava.
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16
Mulher em TARV quer um DIU. O que define a categoria?
Não há interação conhecida entre antirretrovirais e DIU. O que pesa é o estágio clínico do HIV: doença assintomática ou leve (estágio 1 ou 2 da OMS) é categoria 2 para iniciar e continuar; doença grave ou avançada (estágio 3 ou 4) é categoria 3 para iniciar e 2 para continuar. Vale para o DIU de cobre e o de levonorgestrel, com qualquer antirretroviral.
PrEP e risco de HIV
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Mulher em profilaxia pré-exposição ao HIV. Qual a categoria dos métodos contraceptivos?
Categoria 1 para todos os métodos, incluindo os DIUs, com os três regimes avaliados: tenofovir e emtricitabina oral, anel vaginal de dapivirina e cabotegravir injetável. A PrEP é tema novo da 6ª edição.
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18
Que evidência sustentou a categoria 1 para contraceptivos hormonais com PrEP?
Uma revisão sistemática de 2024 com 49 artigos sobre interações entre contraceptivos hormonais e antirretrovirais, dos quais 6 avaliaram PrEP (3 de tenofovir e emtricitabina oral, 1 do anel de dapivirina e 2 de cabotegravir). Não houve diferença no risco de gravidez, na eficácia da PrEP nem em eventos adversos, e a farmacocinética não sugeriu interação.
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Mulher com alto risco de adquirir HIV. Qual a categoria do DMPA, dos implantes e dos DIUs?
Categoria 1 para todos os métodos. A 6ª edição incorpora a orientação de 2019: um ensaio clínico randomizado de alta qualidade não encontrou diferença na aquisição de HIV entre DMPA intramuscular, DIU de cobre e implante de levonorgestrel. No texto de 2015 o DIU de levonorgestrel era categoria 2 nessa condição; para ele não há estudos, e a categoria 1 é extrapolada. Mulheres com alto risco de HIV costumam ter risco de outras ISTs, e para o DIU vale também a condição de risco aumentado de IST.
Contracepção de emergência
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Mulher usou a pílula de emergência mais de uma vez no mesmo ciclo. Qual a categoria?
Categoria 1 para pílula combinada, levonorgestrel e ulipristal. Em 2015 o uso repetido já era categoria 1, mas com o esclarecimento de que indicava necessidade de aconselhamento sobre outros métodos e de que o uso frequente poderia ser prejudicial em mulheres com condições classificadas como 2, 3 ou 4 para os métodos hormonais. Na 6ª edição a condição passou a se chamar uso mais de uma vez no ciclo menstrual, foi revisada com evidência de certeza muito baixa (um estudo observou mais gravidez ectópica com uso repetido de levonorgestrel 1,5 mg) e o esclarecimento não aparece mais na tabela.
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Qual a categoria da pílula de emergência em quem usa indutores do CYP3A4 (rifampicina, fenitoína, carbamazepina, efavirenz, erva-de-são-joão)?
Categoria 1 para pílula combinada, levonorgestrel e ulipristal, com o esclarecimento de que indutores potentes podem reduzir a eficácia. Segundo a bula, a rifampicina reduz os níveis de ulipristal em 90% ou mais. Com efavirenz, os níveis de levonorgestrel caíram 56% em um estudo e 50% em outro, com meia-vida 47% mais curta; com dose dobrada de levonorgestrel (3 mg) a concentração ficou semelhante à dos controles, mas a meia-vida seguiu mais curta. A nevirapina, que constava entre os exemplos de indutores em 2015, saiu da lista.
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22
Qual a categoria da pílula de emergência na lactante, e qual o cuidado com o ulipristal?
Pílula combinada e levonorgestrel: categoria 1. Ulipristal: categoria 2, porque é excretado no leite. A amamentação não é recomendada por 1 semana após o ulipristal; nesse período o leite deve ser ordenhado e descartado.
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A obesidade muda a categoria da pílula de emergência?
Não: categoria 1 para os três tipos. O esclarecimento é que a pílula de emergência pode ser menos eficaz com IMC de 30 kg/m² ou mais do que com IMC abaixo de 25, sem preocupação de segurança. A evidência é de um estudo com levonorgestrel e dois com ulipristal (em um deles sem significância).
O que ficou de fora
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24
A 6ª edição trouxe recomendação para mulheres com doença inflamatória intestinal?
Não. O grupo revisou uma revisão sistemática e as tabelas GRADE e julgou a evidência insuficiente para qualquer recomendação, considerando também a dificuldade de diagnosticar a doença em muitas regiões.
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Fonte
World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use, sixth edition. Geneva: WHO; 2025. 218 p. ISBN 978-92-4-011558-3. Licença CC BY-NC-SA 3.0 IGO. A coluna de 2015 do quadro foi conferida em: WHO. Medical eligibility criteria for contraceptive use, fifth edition. Geneva: WHO; 2015. Página oficial da 6ª edição (OMS, com o PDF integral)
Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.