Mateus Cavarzan

SOP muda de nome: síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), consenso global de 2026

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em maio de 2026 o Lancet publicou o consenso global que troca o nome da síndrome dos ovários policísticos (SOP, PCOS em inglês) por síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP, PMOS em inglês). O processo reuniu 56 organizações e mais de 14 mil respostas de pacientes e profissionais de todas as regiões do mundo, com método Delphi modificado e oficinas por técnica de grupo nominal.

O argumento central é simples: o nome antigo sugere cistos ovarianos patológicos, que não são característica da doença, e esconde o componente endócrino e metabólico. O artigo não altera os critérios diagnósticos: continua citando os da diretriz internacional de 2023, que será atualizada em 2028 e incorporará o novo nome. Os flashcards seguem o texto original.

Antes e agora

PontoAntesAgora
NomeSíndrome dos ovários policísticos (PCOS, em inglês).Síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS, em inglês; SOMP, em português).
O que o nome dizUm órgão e cistos ovarianos patológicos, que não são característica da condição.Três eixos da fisiopatologia: endócrino, metabólico e ovariano.
Critérios diagnósticosDiretriz internacional de 2023: em adultas, 2 de 3 critérios; em adolescentes, os 2 primeiros.O artigo não os altera. A diretriz internacional, usada em 195 países, será atualizada em 2028 e incorporará o novo nome.
SiglaPCOS, com pedidos de mudança desde a oficina do NIH de 2012.PMOS, parecida de propósito com a antiga: a estratégia escolhida foi a de atualização, não a de doença nova.
TransiçãoTentativas anteriores de renomear não avançaram.Período de transição gerido de 3 anos, com avaliação contínua, integração em prontuários eletrônicos e na CID, em articulação com a OMS.

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O que mudou

  1. 01

    Qual é o novo nome da síndrome dos ovários policísticos, e onde foi publicado?

    Polyendocrine metabolic ovarian syndrome (PMOS), em português síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). O consenso global foi publicado online no Lancet em 12 de maio de 2026.

  2. 02

    Por que o termo ovários policísticos é considerado impreciso?

    Porque implica cistos ovarianos patológicos, que não são característica da condição: a parada do desenvolvimento folicular é comum, mas cistos patológicos não estão aumentados.

  3. 03

    Quais são os três termos do novo nome, e o que cada um representa?

    Poliendócrino (distúrbios de insulina, androgênios e eixo neuroendócrino), metabólico (obesidade, disglicemia, dislipidemia e risco cardiovascular) e ovariano (disfunção endócrina, folicular e ovulatória do ovário).

  4. 04

    Qual é a prevalência da condição segundo o artigo?

    Uma em cada oito mulheres, ou 170 milhões de mulheres só em idade reprodutiva. Até 70% das afetadas permanecem sem diagnóstico.

  5. 05

    Que outras consequências do nome antigo o consenso aponta?

    Atraso no diagnóstico, cuidado fragmentado, estigma (sobretudo onde a fertilidade tem alto valor social), confusão na classificação epidemiológica, na codificação dos sistemas de saúde e na comparabilidade das pesquisas.

O que não mudou: os critérios

  1. 06

    Quais critérios diagnósticos o artigo cita para adultas?

    Os da diretriz internacional: em adultas, de 20 anos ou mais, pelo menos 2 de 3: oligoanovulação; hiperandrogenismo clínico ou bioquímico; ovários policísticos à ultrassonografia ou hormônio antimülleriano (AMH) elevado. Sempre depois de excluir outras doenças.

  2. 07

    E nas adolescentes?

    Entre 10 e 19 anos exigem-se os dois primeiros critérios: oligoanovulação e hiperandrogenismo clínico ou bioquímico.

  3. 08

    O consenso altera os critérios diagnósticos?

    Não. O artigo trata do nome e da estratégia de implementação, não dos critérios. A diretriz internacional, usada em 195 países, será atualizada em 2028 e incorporará a nova nomenclatura.

A base de cada termo

  1. 09

    Por que a condição é chamada de poliendócrina?

    Porque envolve múltiplas alterações endócrinas interligadas: hiperandrogenismo (ovariano e muitas vezes adrenal), maior pulsatilidade de GnRH com elevação de LH, resistência à insulina com hiperinsulinemia, além de alterações de AMH, adipocinas e hormônios intestinais.

  2. 10

    Qual é a frequência de resistência à insulina na SOMP?

    Resistência à insulina com hiperinsulinemia compensatória em 85% das afetadas, incluindo 75% das mulheres magras (IMC de 25 kg/m² ou menos).

  3. 11

    Que complicações cardiometabólicas o artigo associa à SOMP?

    Intolerância à glicose, diabetes gestacional, doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão e disfunção vascular, agravadas pela obesidade.

  4. 12

    Quanto aumenta a chance de eventos cardiovasculares em mulheres predominantemente na pré-menopausa?

    Razões de chance de 1,68 para doença cardiovascular composta, 2,50 para infarto do miocárdio e 1,71 para acidente vascular cerebral, em comparação com mulheres sem a síndrome.

  5. 13

    Qual é o papel da obesidade na SOMP?

    A obesidade, sobretudo central, é mais frequente, aparece como causal em estudos de randomização mendeliana e piora a gravidade dos sintomas. Intervenções de estilo de vida, farmacológicas e cirúrgicas para o peso mostraram benefício clínico.

  6. 14

    Por que ovariano entrou no nome, e não ovulatório?

    Ovariano abrange os distúrbios endócrinos, foliculares e ovulatórios do ovário. Ovulatório foi considerado estreito, por não representar as alterações ovarianas, endócrinas e foliculares, e irrelevante depois da menopausa.

  7. 15

    Como o AMH entra na história?

    A foliculogênese alterada acumula pequenos folículos antrais, a imagem clássica ao ultrassom, e eleva o AMH, que passou a integrar os critérios diagnósticos em adultas.

  8. 16

    Por que as manifestações psicológicas e dermatológicas ficaram fora do nome?

    São importantes, mas em grande parte secundárias às alterações endócrinas. Os termos não tiveram apoio para entrar no nome.

Como se chegou ao nome

  1. 17

    Que métodos sustentaram o consenso?

    Pesquisas globais iterativas (14.360 respostas: 10.411 pacientes e 3.949 profissionais de saúde), método Delphi modificado, oficinas por técnica de grupo nominal e análises de marketing e implementação, com 56 organizações engajadas.

  2. 18

    Que abordagem pacientes e profissionais preferiram?

    Um nome novo e preciso, baseado nas características da doença (86% das pacientes e 71% dos profissionais), acima de um nome genérico (45% e 54%) e de manter a sigla PCOS com termos novos (20% das pacientes e 40% dos profissionais).

  3. 19

    Por que endocrine metabolic ovulatory syndrome, primeiro colocado em uma das etapas, foi abandonado?

    A sigla EMOS se sobrepunha à subcultura jovem emo, um problema cultural, e ovulatório não cobria os distúrbios ovarianos, endócrinos e foliculares nem a fase pós-menopausa. Poliendócrino entrou na segunda pesquisa e ovariano na segunda oficina.

  4. 20

    O que significa rebranding evolutivo, recomendado pela análise de marketing?

    Manter alguma continuidade com o nome ou a sigla antiga e apresentar a mudança como atualização, em vez de um rebranding revolucionário, que daria a ideia de doença nova.

  5. 21

    Quem liderou o processo?

    O Centro de Excelência em Pesquisa em Saúde da Mulher na Vida Reprodutiva, da Monash University, com financiamento do NHMRC da Austrália, ao lado da Androgen Excess and PCOS Society e da Verity, instituição de pacientes do Reino Unido.

Implementação

  1. 22

    Quanto tempo dura a transição para o novo nome?

    Período de transição gerido de 3 anos, com monitoramento e avaliação, consideração de evidências emergentes sobre subtipos e refinamento da terminologia conforme o conhecimento evolua.

  2. 23

    Que frentes compõem a estratégia de implementação em oito estágios?

    Publicação e disseminação acadêmica; recursos multilíngues; comunicação global; integração em prontuários eletrônicos (SNOMED CT); alinhamento com políticas e pesquisa; OMS e CID; transição de 3 anos; e integração na diretriz internacional em 2028.

  3. 24

    Quais limitações os autores reconhecem?

    Representação desproporcional entre regiões e disciplinas, com menor participação de países de renda média e baixa e das regiões da Ásia, África e América do Sul; amostragem não probabilística e participação voluntária, com possível viés de seleção e prejuízo à generalização; taxa de resposta da primeira pesquisa indeterminável.

Fonte

Teede HJ, Bahri Khomami M, Morman R, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026;407(10545):2329-2339. Acesso aberto (CC BY 4.0). doi:10.1016/S0140-6736(26)00717-8

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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