Mateus Cavarzan

Critérios IOTA 2026 para massas anexiais: as definições de ultrassom que mudaram e como elas entram no ADNEX e no O-RADS

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em abril de 2026 o grupo International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) publicou on-line no Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (edição de maio) a atualização do consenso de termos, definições e medidas para descrever massas anexiais ao ultrassom. O documento de 2000 é a base dos descritores benignos, do modelo ADNEX e da estratégia em dois passos que levam uma lesão a uma categoria O-RADS. O grupo refinou as definições sobre as quais os usuários tinham dúvida, porque os métodos só funcionam se a terminologia for aplicada do mesmo jeito.

As mudanças são objetivas e caem bem em questão de prova: o componente sólido precisa de pelo menos um diâmetro de 3 mm, a projeção papilar precisa de altura de 3 mm ou mais, o tumor sólido pode ser irregular por dentro mesmo com contorno externo liso, a sombra de borda não é sombra acústica, o escore de cor segue a regra do pior cenário e o centro oncológico ganhou definição formal. O quadro reúne cinco dessas definições e o efeito de cada uma no ADNEX.

Cinco definições que mudaram

TermoDefinição de 2026Efeito no ADNEX e no laudo
Componente sólidoTecido sólido com pelo menos um diâmetro igual ou maior que 3 mm. Sem nenhum diâmetro de 3 mm, não é componente sólido.Define se a lesão é unilocular-sólida ou multilocular-sólida e alimenta a variável "maior diâmetro do maior componente sólido".
Projeção papilarComponente sólido que se projeta para dentro da cavidade cística com altura igual ou maior que 3 mm. Protrusão com altura menor que 3 mm e base de 3 mm ou mais é componente sólido, mas não projeção papilar.Entra na contagem de projeções papilares do ADNEX (0, 1, 2, 3 ou 4 ou mais), inclusive quando a projeção fica dentro de uma área cística de um tumor sólido.
Tumor sólido irregularÂngulos agudos (menores que 90°), lobulações ou margens espiculadas no contorno externo. Cisto interno com parede irregular ou projeção papilar também torna o tumor irregular, mesmo com contorno externo liso.Padroniza a descrição do contorno. Por definição atualizada à parte, no tumor sólido (80% ou mais de tecido sólido) o número de lóculos não é contado e a resposta a "mais de 10 lóculos" no ADNEX é sempre não.
Sombra acústicaSó a sombra que nasce de área dentro da lesão. A sombra de borda, artefato das bordas arredondadas de qualquer massa, e a atenuação gradual sem área definida de perda de sinal não contam.Evita marcar "sim" na variável sombra acústica do ADNEX por artefato de borda.
Escore de corRegra do pior cenário: vale o maior grau de vascularização visto no tumor. Um componente sólido muito vascularizado dá escore 4 mesmo com paredes e septos pouco vascularizados.Uniformiza o escore de cor (1 a 4), dado para o tumor como um todo; o escore não deve ser avaliado com as novas técnicas de microvascularização.

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O consenso

  1. 01

    O que o grupo IOTA publicou em 2026 e qual foi o objetivo?

    Uma atualização do consenso de termos, definições e medidas para descrever as características ultrassonográficas de tumores anexiais, publicada no Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (2026;67(5):702-724). O objetivo foi atualizar os termos e definições sobre os quais os usuários tinham expressado dúvida em congressos e cursos, porque o uso correto da terminologia é pré-requisito para os métodos IOTA funcionarem. O documento trata de termos, definições e medidas, não de um modelo novo.

  2. 02

    Quais métodos o Comitê Diretor do IOTA recomenda para caracterizar massas ovarianas e como eles levam à categoria O-RADS?

    Os descritores benignos do IOTA, o modelo ADNEX e a estratégia em dois passos. Ovários normais ou achados funcionais são O-RADS 1; lesão com descritor benigno é O-RADS 2; se nenhum descritor benigno se aplica, o ADNEX calcula o risco de malignidade e classifica em O-RADS 2 a 5.

  3. 03

    Quais são os quatro descritores benignos do IOTA?

    BD1: cisto unilocular com ecogenicidade em vidro fosco e maior diâmetro menor que 10 cm em mulher na pré-menopausa (endometrioma presumido). BD2: cisto unilocular com ecogenicidade mista e sombra, menor que 10 cm, na pré-menopausa (cisto dermoide presumido). BD3: cisto unilocular de paredes regulares, conteúdo anecoico e menor que 10 cm (cisto simples ou cistadenoma). BD4: qualquer outro cisto unilocular de paredes regulares e menor que 10 cm (classificado como benigno).

  4. 04

    Quais variáveis o modelo ADNEX usa?

    Maior diâmetro da lesão (mm), maior diâmetro do maior componente sólido (mm), mais de 10 lóculos (sim ou não), número de projeções papilares (0, 1, 2, 3 ou 4 ou mais), presença de sombra acústica (sim ou não), presença de ascite (sim ou não), além do tipo de centro (oncológico ou não).

  5. 05

    Como o risco calculado pelo ADNEX se converte em categoria O-RADS e em conduta?

    O-RADS 2: descritor benigno presente ou risco menor que 1% (quase certamente benigno; conduta conservadora possível sem sintomas). O-RADS 3: risco de 1% a menos de 10% (baixo risco; ginecologista local). O-RADS 4: 10% a menos de 50% (risco intermediário; oncologista ginecológico). O-RADS 5: 50% a 100% (alto risco; oncologista ginecológico).

Componente sólido e projeção papilar

  1. 06

    Qual é a definição atualizada de componente sólido?

    Estrutura com ecogenicidade de tecido sólido (como miométrio ou fibroma ovariano) que tem pelo menos um diâmetro igual ou maior que 3 mm. Tecido sólido sem nenhum diâmetro de 3 mm não é classificado como componente sólido.

  2. 07

    O que não conta como componente sólido, mesmo parecendo tecido?

    Coágulos e material amorfo (muco, sebo), a bola branca do cisto dermoide (pelos e sebo, avascular), o sludge na parede do endometrioma, as paredes do cisto, os septos (mesmo espessos) e o estroma ovariano normal; septos e estroma não contam ainda que vascularizados ao Doppler.

  3. 08

    Como diferenciar tecido sólido de coágulo ou muco ao exame?

    Com os ajustes de Doppler otimizados, sinal Doppler dentro da estrutura confirma tecido sólido (exceto septos, septos incompletos e estroma normal). A ausência de sinal não exclui tecido sólido, e na dúvida classifica-se como componente sólido. Coágulo e muco nunca têm vascularização interna; o coágulo costuma ter contorno côncavo, consistência gelatinosa e se deforma ou se desloca da parede com a pressão suave do transdutor, enquanto o tecido sólido permanece firme.

  4. 09

    Qual é a definição atualizada de projeção papilar e qual é a pegadinha da base?

    Componente sólido que se projeta para dentro da cavidade cística com altura igual ou maior que 3 mm, sem limite superior de tamanho; pode nascer da parede ou de um septo (nesse caso a altura é medida a partir da superfície do septo). Se a protrusão tem altura menor que 3 mm mas algum diâmetro de 3 mm ou mais (base de 3 mm ou mais), ela é componente sólido, mas não projeção papilar.

  5. 10

    Como se mede a projeção papilar e o que não entra na medida?

    A maior projeção é medida em dois planos perpendiculares, com três diâmetros ortogonais: altura, base 1 e base 2. A espessura da parede ou do septo de onde ela nasce não entra na medida da altura. A superfície da projeção é descrita como lisa ou irregular (tipo couve-flor).

  6. 11

    Como contar projeções papilares confluentes, com vários picos?

    Para cada par de picos adjacentes mede-se, da mesma linha de base e perpendicular à parede ou ao septo, a altura de cada pico e a altura do fundo do vale entre eles. Se o fundo do vale tem altura igual ou maior que 50% da altura do pico mais baixo, os dois picos contam como uma única projeção; se menor que 50%, contam como duas projeções separadas. A avaliação se repete para cada par de picos.

Tipos de lesão

  1. 12

    Quais são os seis tipos de lesão do IOTA?

    Cisto unilocular (um lóculo, sem septo e sem componente sólido), cisto unilocular-sólido (um lóculo com um ou mais componentes sólidos), cisto multilocular (pelo menos um septo, sem componente sólido; cisto com pequenos cistos-filhos também é multilocular), cisto multilocular-sólido (pelo menos um septo e um ou mais componentes sólidos), tumor sólido (componentes sólidos em 80% ou mais do volume) e não classificável (má visualização, por exemplo por sombra de calcificação).

  2. 13

    Cisto com um lóculo e um componente sólido que contém microcistos: unilocular-sólido ou multilocular-sólido?

    Unilocular-sólido. A definição atualizada diz que os microcistos dentro do componente sólido não transformam a lesão em multilocular-sólida.

  3. 14

    Como os septos incompletos, como os da hidrossalpinge, influenciam a classificação?

    Septo incompleto é uma fita fina de tecido que não alcança a parede oposta em alguns planos. Lesão cística só com septos incompletos e sem componente sólido é classificada como cisto unilocular, mesmo que em alguns planos pareça multilocular. Piossalpinge ou hidrossalpinge com sinal da roda dentada ou do colar de contas pode cair em unilocular-sólido se alguma protrusão tiver diâmetro de 3 mm ou mais.

  4. 15

    Tumor sólido pode ter projeção papilar? E os lóculos dele são contados?

    Pode: projeções papilares que se projetam para dentro de uma área cística do tumor sólido devem ser relatadas e contadas, o que importa para a variável número de projeções do ADNEX. Já o número de lóculos não é contado uma vez que a massa é classificada como tumor sólido (80% ou mais de tecido sólido): no ADNEX a resposta a mais de 10 lóculos é sempre não.

Paredes, contorno e conteúdo

  1. 16

    Quando a parede interna do cisto é irregular e quando a parede externa é irregular?

    A parede interna é irregular sempre que tecido sólido se projeta para a cavidade: protrusão com altura menor que 3 mm é irregularidade de parede; com 3 mm ou mais é projeção papilar, que por definição torna a parede irregular mesmo com superfície lisa. Irregularidade explicada por sludge ou pelos não conta. A parede externa é descrita como irregular quando há tecido sólido crescendo na superfície externa do cisto, avaliável quando há líquido na pelve.

  2. 17

    O que torna um tumor sólido irregular?

    Ângulos agudos (menores que 90°), lobulações ou margens espiculadas no contorno externo. Além disso, se o tumor sólido contém algum cisto com irregularidade da parede interna (projeção papilar ou outra) ou com contorno um tanto irregular, o tumor é descrito como irregular mesmo com contorno externo liso.

  3. 18

    Como se descreve a ecogenicidade do conteúdo cístico e o que é conteúdo variável?

    Anecoico, baixa ecogenicidade (ecos esparsos), vidro fosco (homogêneo, típico do endometrioma), hemorrágico (fibrina em fios, coágulos, aspecto estrelado ou em teia) ou misto (tipos diferentes no mesmo lóculo, como no dermoide). Definição nova: se lóculos diferentes de um cisto multilocular têm ecogenicidade diferente, o cisto tem conteúdo variável.

  4. 19

    O que é sombra acústica para o IOTA e o que não deve ser laudado como tal?

    Sombra acústica é a perda de ecos posterior a uma estrutura dentro da lesão que absorve ou reflete o feixe (bola branca do dermoide, projeção fibrosa, calcificação, sombra em leque do fibroma). A sombra de borda, artefato das bordas arredondadas de qualquer massa, não é relatada como sombra acústica porque não nasce de área interna da lesão; a atenuação gradual sem área definida de perda de sinal também não conta.

Ascite, Doppler e centro

  1. 20

    Como o consenso define ascite e o que mudou sobre o líquido no fundo de saco de Douglas?

    Ascite é líquido fora do fundo de saco de Douglas: entre a bexiga e o útero ou acima do fundo uterino ao ultrassom transvaginal, ou no espaço de Morrison ao transabdominal. A medida do maior diâmetro anteroposterior do líquido no fundo de saco, que existia no consenso original, foi retirada por ter pouca relevância clínica; agora só se registra se há ou não ascite.

  2. 21

    Quais ajustes de Doppler o consenso recomenda?

    Examinar todo o tumor (parede, septos e componentes sólidos) com Doppler colorido ou de amplitude, frequência de repetição de pulso de 0,3 a 0,6 kHz (escala de velocidade de 3 a 6 cm/s) e ganho máximo sem artefato: começar com ganho alto e reduzir até os artefatos sumirem. No transabdominal, ajustar ao índice de massa corporal e à distância do tumor. O escore de cor do IOTA não deve ser avaliado com as novas técnicas de microvascularização.

  3. 22

    Como é o escore de cor e qual é a regra do pior cenário?

    Escore 1: nenhum sinal Doppler na lesão; 2: sinal mínimo; 3: moderado; 4: abundante. Refere-se ao conteúdo de cor da imagem, não ao espectro, e é dado para o tumor como um todo. Pela regra do pior cenário, vale o maior grau de vascularização observado: um componente sólido muito vascularizado dá escore 4 mesmo que parede, septos e outros componentes mostrem pouca vascularização. O fluxo nas projeções papilares é descrito como presente ou ausente.

  4. 23

    O que é centro oncológico para o ADNEX e por que a variável existe?

    Centro de referência terciário com unidade específica de oncologia ginecológica. Exames feitos no mesmo hospital terciário, mas fora da unidade oncológica e em pacientes não encaminhadas para cuidado oncológico, contam como centro não oncológico. A variável existe para calibrar o risco: a prevalência de malignidade é maior em centros oncológicos, e sem ela o risco estimado seria baixo demais nesses centros e alto demais nos outros.

  5. 24

    Como medir a lesão e o ovário, e quando medi-los juntos?

    Ovários, lesões e componentes sólidos são medidos em milímetros, em dois planos perpendiculares, com três diâmetros ortogonais, onde a estrutura parece maior; a cápsula visível entra na medida da lesão. Lesão fora do ovário (hidrossalpinge) e lesão intraovariana bem delimitada são medidas separadamente do ovário; se lesão e ovário são indistinguíveis, mede-se tudo como uma massa única. Uma massa persistente é a que ainda está presente após pelo menos 3 meses.

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Fonte

Timmerman D, Valentin L, Testa AC, Froyman W, Landolfo C, Kotlarz A, Fischerova D, Van Calster B, Bourne T, International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) Group. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of adnexal tumors: updated consensus opinion from the International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) Group. Ultrasound Obstet Gynecol. 2026;67(5):702-724. Acesso aberto (CC BY); texto integral também no PMC (PMC13136064). doi:10.1002/uog.70191

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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