PCDT de leiomioma uterino 2026: ácido tranexâmico e DIU-LNG entram no tratamento pelo SUS
Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .
Em abril de 2026, o Ministério da Saúde levou à consulta pública a atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Leiomioma de Útero, que substitui o texto de 2017. A mudança de fundo é a lógica do tratamento clínico: em 2017 ele só cabia a quem tinha contraindicação cirúrgica e girava em torno dos análogos do GnRH, com add-back e sulfato ferroso. Agora é opção inicial para quem tem sintomas, com um fluxograma em que, afastadas a conduta expectante e a preferência pela cirurgia, a decisão central é se há recomendação de terapia hormonal.
Os dois medicamentos novos foram incorporados ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 101, de 8 de janeiro de 2026: o DIU de levonorgestrel para quem é elegível à terapia hormonal e não tem distorção importante da cavidade uterina, e o ácido tranexâmico para quem não pode ou não respondeu ao hormônio. Os cards seguem a versão preliminar submetida à Consulta Pública nº 30/2026; o texto final ainda não foi publicado.
Antes e agora
| Ponto | PCDT de 2017 | PCDT de 2026 (versão preliminar) |
|---|---|---|
| Quando tratar com remédio | Só nos casos de contraindicação cirúrgica, atestada por médico. O tratamento de eleição era cirúrgico. | Opção inicial para controle dos sintomas ou nos casos de contraindicação cirúrgica. Mioma assintomático segue sem tratamento, só com vigilância. |
| Medicamentos do protocolo | Gosserrelina, leuprorrelina e triptorrelina, com add-back de estrogênios conjugados ou acetato de medroxiprogesterona, mais sulfato ferroso. | Entram ácido tranexâmico, DIU-LNG de 52 mg e etinilestradiol + levonorgestrel. Saem os estrogênios conjugados. A reposição de ferro passa ao PCDT de anemia ferropriva. |
| Contraceptivos e progestagênios | Como tratamento isolado, citados entre os de evidência limitada, sem recomendação. O acetato de medroxiprogesterona só entrava como add-back do análogo. | COC e acetato de medroxiprogesterona são a primeira escolha hormonal de quem não é elegível ao DIU-LNG. O MPA é a alternativa quando o estrogênio é contraindicado. |
| Análogos do GnRH | Principal tratamento clínico. Uso isolado por até 6 meses; com add-back, até 1 ano. | Reservados sobretudo ao preparo pré-operatório, por no máximo 3 meses. Uso isolado até 6 meses; com add-back, até 1 ano, em serviço especializado. |
| Monitoramento | Avaliação clínica, hemograma e ultrassonografia a cada 3 meses. | Avaliação clínica periódica; hemograma e ultrassonografia quando o exame físico ou a clínica indicar alteração. Densitometria ao fim de 1 ano de análogo com add-back. |
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O protocolo
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01
Qual é a situação da atualização do PCDT de leiomioma uterino em 2026?
O Comitê de PCDT da Conitec deu recomendação preliminar favorável à atualização na 150ª reunião, em 10 de abril de 2026, e o texto foi à Consulta Pública SCTIE/MS nº 30/2026, publicada no Diário Oficial de 16 de abril, por 20 dias. É uma versão preliminar: a redação final ainda não foi publicada. O PCDT em vigor até então era o da Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11, de 31 de outubro de 2017.
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02
Que norma incorporou o ácido tranexâmico e o DIU-LNG ao SUS para o leiomioma uterino, e para quem?
A Portaria SCTIE/MS nº 101, de 8 de janeiro de 2026, após recomendação unânime do Comitê de Medicamentos da Conitec em 8 de dezembro de 2025 (Relatório de Recomendação nº 1.066). Ácido tranexâmico: pessoas em idade reprodutiva com leiomioma e sangramento uterino intenso, inelegíveis ou refratárias ao tratamento hormonal. DIU-LNG: as mesmas pessoas, quando elegíveis à terapia hormonal.
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03
Quais são as três mudanças principais listadas no histórico de alterações do PCDT de 2026?
Atualização do documento, com a incorporação do ácido tranexâmico e do DIU-LNG registrada na coluna de tecnologias avaliadas pela Conitec; exclusão da recomendação de uso dos estrogênios conjugados; e direcionamento das condutas de anemia por deficiência de ferro para o PCDT específico (o sulfato ferroso deixa de constar na lista de medicamentos do protocolo).
Diagnóstico
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04
Quem entra no PCDT de 2026 e quais são os critérios de exclusão?
Pessoas em idade reprodutiva (pré-menopausa) com suspeita ou diagnóstico confirmado de leiomioma uterino, qualquer pessoa com útero, independentemente de identidade de gênero. Ficam fora da conduta específica quem tem intolerância, hipersensibilidade ou contraindicação a ela. Do tratamento medicamentoso, excluem-se também as pessoas com osteoporose estabelecida ou alto risco, segundo o PCDT de osteoporose.
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05
Qual é o exame de imagem de primeira escolha para o leiomioma, e quando a ressonância magnética é indicada?
A ultrassonografia transvaginal, de baixo custo e alta acurácia (sensibilidade de 95% a 100%); a via abdominal complementa quando o volume uterino atrapalha a visualização. A ressonância é indicada em úteros volumosos ou com múltiplos miomas difíceis de mapear, no planejamento pré-operatório de miomectomia, na diferenciação entre mioma e adenomiose e na suspeita de degeneração atípica ou de leiomiossarcoma.
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06
Como o PCDT define o sangramento uterino anormal aumentado, e que exames complementares pede nesses casos?
Pela terminologia FIGO: intervalo menor que 24 dias, duração maior que 8 dias e volume descrito pela mulher. Pede hemograma completo para investigar anemia ferropriva e, conforme a avaliação clínica, dosagens hormonais (FSH, TSH, prolactina), coagulograma e teste de gravidez na idade reprodutiva. Na suspeita de neoplasia de endométrio, biópsia endometrial ou histeroscopia.
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07
Na classificação FIGO dos miomas, quais tipos são submucosos, quais são intramurais e quais são subserosos?
Submucosos: tipo 0 (intracavitário, pediculado), 1 (menos de 50% intramural) e 2 (mais de 50% intramural). Intramurais: 3 (100% intramural, tangenciando o endométrio) e 4 (intramural). Subserosos: 5 (mais de 50% intramural), 6 (menos de 50% intramural) e 7 (pediculado). O tipo 8 é o cervical ou parasita, e o híbrido é descrito como 2-5.
Fluxo de tratamento
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08
Como é o fluxograma de tratamento do leiomioma no PCDT de 2026?
Sem sintomas com repercussão clínica: conduta expectante. Com sintomas, se a paciente prefere cirurgia inicial, opera-se. Se não, pergunta-se se há recomendação de tratamento hormonal. Se sim: DIU-LNG para quem é elegível; COC ou medroxiprogesterona para quem não é. Sem controle do sangramento, acrescenta-se ácido tranexâmico; se ainda não controlar, cirurgia. Se não há recomendação hormonal: AINEs ou ácido tranexâmico, e cirurgia se não houver controle.
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09
Em que o PCDT de 2026 muda a indicação do tratamento clínico em relação ao de 2017?
Em 2017 a terapia medicamentosa só era indicada nos casos de contraindicação cirúrgica, atestada por médico, e o tratamento de eleição era o cirúrgico. Em 2026 ela é indicada tanto na contraindicação cirúrgica quanto como opção inicial para controle dos sintomas, com o objetivo de aliviar sintomas, preservar o útero quando desejado e prevenir complicações.
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10
O que o PCDT diz sobre o mioma assintomático?
Não requer tratamento específico. A recomendação é vigilância periódica, com acompanhamento clínico e ultrassonográfico quando indicado. O tratamento está indicado quando há sintomas ou repercussões que comprometam a qualidade de vida: sangramento uterino aumentado, dor pélvica, sintomas compressivos ou impacto na fertilidade.
Tratamento não hormonal
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11
Como o ácido tranexâmico é usado no leiomioma, e qual é a dose do PCDT?
Exclusivamente nos dias de fluxo menstrual, para controle não hormonal do sangramento. No quadro de esquemas: 1 g, 3 a 4 vezes ao dia, por 3 a 5 dias durante o fluxo, com comprimidos de 250 mg e 500 mg. Não reduz o volume uterino nem dos miomas e não interfere na fertilidade.
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12
Quais são as contraindicações do ácido tranexâmico no PCDT?
História de tromboembolismo venoso ou arterial ativo, com cautela em pacientes de alto risco trombótico. No quadro de contraindicações: coagulação intravascular ativa, vasculopatia oclusiva aguda e hipersensibilidade aos componentes.
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13
Qual é o papel dos AINEs no tratamento do leiomioma?
São recomendados para o controle da dor pélvica e para a redução do fluxo menstrual, dentro do tratamento não hormonal. O uso de AINEs e demais analgésicos deve seguir o PCDT da Dor Crônica vigente.
Tratamento hormonal
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Quais são as condições para indicar o DIU-LNG no leiomioma, e em que casos ele deve ser evitado?
Diagnóstico confirmado de leiomioma e ausência de distorção significativa da cavidade uterina, confirmada por ultrassonografia transvaginal ou ressonância. Deve ser evitado ou avaliado com critério nos miomas submucosos (FIGO 0, 1 e 2) e nos intramurais que deformem a cavidade, pelo maior risco de expulsão, sangramento persistente e falha terapêutica.
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15
Qual DIU-LNG está no PCDT e por quanto tempo ele pode ser mantido?
O sistema intrauterino com 52 mg de levonorgestrel, uma unidade, com troca a cada 8 anos. A ação é predominantemente endometrial, com alta eficácia contraceptiva, redução do fluxo menstrual e melhora da anemia.
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16
Qual é o contraceptivo oral combinado do PCDT e quando o acetato de medroxiprogesterona é preferido?
Etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, em uso diário contínuo, para quem não tem contraindicação ao estrogênio. O acetato de medroxiprogesterona (2,5 a 10 mg por dia por via oral, ou 150 mg intramuscular a cada 12 a 13 semanas) é a alternativa quando o estrogênio é contraindicado: tabagistas com mais de 35 anos, hipertensão não controlada, risco cardiovascular ou trombótico.
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COC, progestagênios e DIU-LNG reduzem o volume dos miomas?
COC e progestagênios não: têm papel exclusivamente sintomático, para controle do ciclo e redução do fluxo. Do DIU-LNG o PCDT descreve só a redução do fluxo e a melhora da anemia. A redução de volume uterino é efeito dos análogos do GnRH, de 25% a 80%, com efeito máximo em cerca de 12 semanas.
Análogos do GnRH
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18
Para que os análogos do GnRH ficam reservados no PCDT de 2026, e por quanto tempo?
Para uso em curto prazo: controle sintomático temporário, correção de anemia ou preparo pré-operatório, quando se espera redução importante do volume ou da perda sanguínea intraoperatória. O uso isolado costuma ficar reservado ao pré-operatório, limitado a no máximo 3 meses; o limite geral do uso isolado é de 6 meses, pelos sintomas vasomotores e pela perda óssea.
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19
O que é a add-back therapy no PCDT e até quando ela permite prolongar o análogo?
É a adição de estrogênios isolados ou associados a progestagênio (acetato de medroxiprogesterona) após a fase inicial de down-regulation, para manter a amenorreia e a redução do volume e prevenir fogachos e perda óssea. Com add-back, o tratamento pode ir até 1 ano, em serviço especializado de ginecologia, com densitometria óssea ao final.
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Quais análogos do GnRH e quais esquemas o PCDT lista?
Gosserrelina 3,6 mg mensal ou 10,8 mg a cada 3 meses (implante subcutâneo); leuprorrelina 3,75 mg mensal ou 11,25 mg a cada 3 meses; triptorrelina 3,75 mg mensal ou 11,25 mg a cada 3 meses. A perda de massa óssea é reversível, com retorno ao padrão prévio 6 a 9 meses após a interrupção.
Cirurgia
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Qual é o tratamento definitivo do leiomioma e quando a miomectomia é a escolha?
A histerectomia é o tratamento definitivo, recomendada a quem não deseja mais filhos e tem sintomas significativos; quando viável, a via vaginal é preferencial. A miomectomia preserva o útero e é indicada a quem quer manter a fertilidade ou o órgão: histeroscópica para o submucoso com a maior parte intracavitária; laparoscópica ou abdominal quando há grande componente intramural.
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Qual é a chance de recorrência depois da miomectomia, segundo o PCDT?
Cerca de 50% das pacientes desenvolvem novos miomas em 5 anos e 11% a 26% precisam de nova cirurgia maior. O número de miomas é fator prognóstico de recorrência. Misoprostol e vasopressina reduzem o sangramento intraoperatório.
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23
Quando a embolização das artérias uterinas é contraindicada e qual é o lugar dela em quem quer engravidar?
Contraindicação absoluta em gravidez, infecção ativa e suspeita de malignidade uterina, cervical ou anexial. Tem menor internação e retorno mais rápido às atividades, mas mais recorrência e reintervenção. Em quem deseja gestar e pode fazer miomectomia, a cirurgia é a primeira escolha; a embolização fica para quando a anatomia não permite a miomectomia, há miomectomia prévia, alto risco cirúrgico ou recusa da cirurgia.
A incorporação
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Que evidência sustentou a incorporação do DIU-LNG e do ácido tranexâmico na Conitec?
Três ensaios clínicos. O DIU-LNG, comparado aos contraceptivos orais combinados, reduziu o sangramento menstrual em 90,9% contra 13,4% (certeza moderada). O ácido tranexâmico, comparado ao placebo, levou mais pacientes a sangramento menor que 80 mL por ciclo (certeza baixa a muito baixa). A consulta pública nº 91/2025 teve 537 contribuições, 83% favoráveis.
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25
O que o PCDT recomenda para o acompanhamento de quem está em tratamento clínico?
Avaliação clínica periódica; hemograma e ultrassonografia quando o exame físico ou a clínica indicar alteração. Quem tem contraindicação ao tratamento cirúrgico curativo deve ser reavaliada a cada 6 meses. Com a menopausa, a queda hormonal dispensa o tratamento. Em 2017 a regra era hemograma e ultrassonografia a cada 3 meses.
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Fonte
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero: relatório de recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública SCTIE/MS nº 30, de 14 de abril de 2026 (DOU de 16 abr. 2026, Seção 1). Brasília, abril de 2026. 42 p. Conitec. Relatório de Recomendação nº 1.066: ácido tranexâmico e DIU-LNG para pacientes com leiomioma de útero com sangramento uterino intenso. Brasília, dezembro de 2025 (Portaria SCTIE/MS nº 101, de 8 de janeiro de 2026). Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11, de 31 de outubro de 2017 (PCDT anterior). PDF do relatório preliminar (gov.br/conitec)
Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.