Mateus Cavarzan

Cálcio na gestação: FEBRASGO e RBEHG deixam de recomendar para prevenir pré-eclâmpsia

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em março de 2026, a Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG) e a Comissão Nacional Especializada de Hipertensão na Gestação da FEBRASGO publicaram um novo posicionamento sobre o cálcio na gestação. As entidades passaram a não recomendar a suplementação de cálcio para prevenir a pré-eclâmpsia. O documento revê a posição de dezembro de 2025, que ainda mantinha a reposição de 500 a 1.000 mg por dia para gestantes de alto risco e/ou com baixa ingestão de cálcio.

O motivo é a revisão da Cochrane de 2025 (Cluver e colaboradores), que atualizou a metanálise de Hofmeyr de 2018. Ao excluir os estudos considerados não confiáveis, o efeito protetor do cálcio desapareceu. A conclusão da revisão de 2018, de que o cálcio em dose igual ou maior que 1 g por dia reduz o risco, era a base das orientações da OMS e do Ministério da Saúde. Os flashcards cobrem as duas metanálises, as limitações da evidência, os números da mortalidade materna e o que cada documento recomendou.

Antes e agora

PontoDezembro de 2025Março de 2026
Recomendação centralPor enquanto, não mudar a diretriz: manter a reposição de cálcio em gestantes de alto risco para pré-eclâmpsia e/ou com baixa ingestão de cálcio.As entidades modificam o entendimento e passam a não recomendar o uso de cálcio para a prevenção da pré-eclâmpsia, à luz das evidências atuais.
Dose citada500 a 1.000 mg por dia, para a população brasileira.O documento não cita dose: não recomenda cálcio para prevenir pré-eclâmpsia.
Suplementação universalA evidência recente não sustenta benefício claro e consistente; preferir abordagens direcionadas.O documento não separa grupos: não recomenda cálcio para prevenir pré-eclâmpsia em nenhum deles.
Cálcio por outras indicaçõesA deficiência de cálcio no país beira 100% da população (IBGE), o que justificava não deixar de prescrever.A prescrição pode ser feita por outras indicações e fica a critério do próprio médico.
Posição quanto à Cochrane 2025Discordava dos autores de que o tema estivesse encerrado; a metanálise ainda podia ser revista com os estudos pendentes.A linha de pesquisa segue em aberto; as entidades aguardam novas metanálises e as posições de ISSHP, OMS e Ministério da Saúde.

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O posicionamento

  1. 01

    O que a RBEHG e a FEBRASGO passaram a recomendar em 2026 sobre o cálcio para prevenção de pré-eclâmpsia?

    Passaram a não recomendar o uso de cálcio para a prevenção da pré-eclâmpsia, à luz das evidências atuais. A decisão veio depois de análises e discussões de grupos de especialistas em hipertensão na gestação e em epidemiologia sobre a nova metanálise da Cochrane.

  2. 02

    Quais entidades assinam o posicionamento e quem são os signatários?

    A Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG) e a Comissão Nacional Especializada de Hipertensão na Gestação da FEBRASGO. Assinam José Carlos Peraçoli, presidente da CNE de Hipertensão na Gestação da FEBRASGO, e José Geraldo Lopes Ramos, presidente da RBEHG.

  3. 03

    Qual foi o posicionamento anterior das mesmas entidades, e de quando ele é?

    De dezembro de 2025. Recomendava que, por enquanto, para a população brasileira, não se mudasse a diretriz de reposição de cálcio de 500 a 1.000 mg por dia em gestantes identificadas com alto risco para pré-eclâmpsia e/ou com baixa ingestão de cálcio, aguardando a OMS e o Ministério da Saúde.

  4. 04

    Depois do posicionamento de 2026, o cálcio ainda pode ser prescrito na gestação?

    Sim, por outras indicações. O documento pondera que a prescrição de cálcio na gestação pode ser feita por outros motivos e que ela pode ser uma escolha do próprio médico. O que deixa de existir é a recomendação de cálcio para prevenir pré-eclâmpsia.

  5. 05

    Que posicionamentos futuros as entidades dizem aguardar?

    Novas metanálises em andamento e as posições da Sociedade Internacional para Estudos da Hipertensão na Gestação (ISSHP), da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde do Brasil. O documento afirma que a linha de pesquisa ainda pode ser estudada.

As duas metanálises

  1. 06

    Qual revisão motivou a mudança de posição, e qual revisão ela atualiza?

    A revisão da Cochrane Database of Systematic Reviews de 2025, de Cluver e colaboradores (CD001059.pub6), que em parte se sobrepõe à metanálise anterior de Hofmeyr e colaboradores, de 2018 (CD001059.pub5).

  2. 07

    O que a metanálise de Hofmeyr (2018) concluiu sobre o cálcio na gestação?

    Que a suplementação com cálcio em dose igual ou maior que 1 g por dia reduz o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em mulheres com baixa ingestão dietética de cálcio. Em algumas análises, apontou também redução de parto pré-termo e de complicações maternas graves. Esses dados embasaram as recomendações da OMS e do Ministério da Saúde.

  3. 08

    O que mudou na análise de Cluver (2025) para o efeito protetor desaparecer?

    Ela incorporou ensaios com maior rigor e avaliações adicionais de qualidade e fez análises de sensibilidade excluindo estudos considerados não confiáveis, com alto risco de viés, como os com baixo número de casos ou sem aprovação de protocolo em plataforma oficial de ensaio clínico randomizado. Após essa exclusão, a evidência deixa de sustentar de forma robusta a prevenção da pré-eclâmpsia pela suplementação rotineira.

  4. 09

    Qual é a diferença crítica entre as revisões de 2018 e de 2025, segundo o documento?

    Hofmeyr sintetizou a evidência disponível até cerca de 2014 a 2018, com muitos estudos de baixa casuística e alguns ensaios por conglomerados, e manteve o efeito ao combinar os estudos. Cluver acrescentou ensaios recentes, multicêntricos e de grande casuística, e fez análises de sensibilidade que excluíram estudos com risco de viés sério, o que mudou substancialmente o efeito global.

  5. 10

    As duas metanálises mostraram efeitos adversos do cálcio?

    Nenhuma das duas mostrou efeitos adversos robustos. Hofmeyr observou pequeno aumento de síndrome HELLP em números absolutos, efeito raro que não anulou os benefícios percebidos. Cluver chama atenção para a incerteza sobre segurança quando o benefício é incerto.

  6. 11

    O que o estudo de Dwarkanath (2024) acrescentou sobre a dose de cálcio?

    Sustenta a não inferioridade da suplementação em dose baixa (500 mg) em relação às doses altas de cálcio. O documento de dezembro de 2025 observa que isso já estava em parte incorporado em protocolos nacionais, que sugerem 1 g por dia.

Limitações da evidência

  1. 12

    Por que a revisão não informa sobre o cálcio iniciado no começo da gravidez?

    Porque a maioria das participantes dos estudos começou o cálcio a partir da metade da gestação. Nos ensaios listados, o início variou de 15 a 26 semanas (Belizan 1983: 15; Villar 1987: 26); só em Dwarkanath 2024 um terço das participantes começou antes de 13 semanas. Isso vale para populações com e sem cálcio suficiente na dieta e para alto e baixo risco.

  2. 13

    Qual foi o resultado do cálcio sobre a mortalidade materna, e por que ele é considerado incerto?

    RR de 0,33 (IC 0,06 a 1,83) quando se usou o denominador de 10 mil nascimentos, com intervalo de confiança amplo. A conclusão se baseou em apenas 3 ensaios clínicos randomizados, com 9.430 pacientes, número insuficiente para um desfecho que se mede por 100 mil nascimentos.

  3. 14

    Qual seria o tamanho de amostra necessário para demonstrar o efeito do cálcio na mortalidade materna?

    Cerca de 15.700 gestantes por grupo, considerando risco basal de mortalidade materna de cerca de 0,15% no grupo placebo, redução de 67% do risco (RR aproximado de 0,33), alfa de 0,05 e poder de 80%.

  4. 15

    Que projeção o documento de 2025 fez para o Brasil, se o efeito sobre a mortalidade materna fosse real?

    Com cerca de 2,4 milhões de nascimentos por ano e cerca de 350 mortes por ano por hipertensão ou eclâmpsia, uma incidência de 15% de hipertensão daria 360 mil possíveis usuárias de cálcio. Com redução de 67% da mortalidade, seriam cerca de 235 mortes evitadas por ano; com adesão de 70%, 165 mortes por ano.

  5. 16

    O que aconteceu com os 20 ensaios da metanálise de 2018 que ficaram fora da revisão de 2025?

    Onze foram excluídos porque os critérios de elegibilidade mudaram e nove aguardam classificação por problemas de confiabilidade. Para as entidades, isso mostrava que a metanálise de Cluver ainda não estava concluída e poderia ser revista após a inclusão desses estudos.

  6. 17

    Que tipo de estudo as entidades consideram necessário para resolver a incerteza que resta?

    Ensaios clínicos randomizados bem desenhados, transparentes, com registro prévio, boa adesão e descrição clara da ingestão dietética basal de cálcio. O mesmo documento pede casuísticas maiores, início precoce da reposição e avaliação rígida de desfechos clínicos.

O que valia em dezembro de 2025

  1. 18

    Em dezembro de 2025, o que as entidades diziam sobre populações com ingestão muito baixa de cálcio?

    Que, apesar da incerteza global, muitas diretrizes, incluindo a da OMS, continuavam a recomendar a suplementação nessas populações, com base na plausibilidade biológica e na evidência histórica. Mas a revisão de 2025 sugeria efeito menor do que se pensava e que políticas universais deveriam ser reavaliadas conforme o contexto local.

  2. 19

    Qual era a posição de dezembro de 2025 sobre a suplementação universal de cálcio para todas as gestantes?

    A evidência recente não sustentava benefício claro e consistente, portanto políticas universais poderiam precisar de reavaliação, com preferência por abordagens direcionadas, como mulheres com baixo consumo dietético e/ou alto risco para pré-eclâmpsia.

  3. 20

    O que a Nota Técnica nº 251/2024 do Ministério da Saúde mudou na prescrição de cálcio no pré-natal?

    Abriu a prescrição de cálcio a profissionais não médicos, como enfermeiras e nutricionistas, na atenção pré-natal multiprofissional, para garantir a intervenção oportuna. O documento de 2025 a considerou um avanço.

  4. 21

    Que dado nacional o documento de 2025 usou para justificar não deixar de prescrever cálcio?

    Que a deficiência de cálcio no Brasil beira 100% da população, segundo o IBGE. No documento de 2026, esse argumento dá lugar à ponderação de que o cálcio pode ser prescrito por outras indicações, a critério do médico.

Fonte

RBEHG; FEBRASGO, Comissão Nacional Especializada de Hipertensão na Gestação. Recomendação para reposição de cálcio em gestantes para a Prevenção de Pré-eclâmpsia. Assinado em 28 de março de 2026 (2 p.). Documento anterior: Recomendação para reposição de cálcio em gestantes, assinado em 21 de dezembro de 2025 (4 p., PDF no site da SOGESP). Texto integral do posicionamento de 2026 (PDF, rbehg.com.br)

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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