Mateus Cavarzan

Profilaxia de anemia ferropriva em lactentes: a SBP troca a dose por peso pela dose fixa em ciclos (atualização 2026)

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em 17 de março de 2026 os Departamentos Científicos de Nutrologia e de Hematologia e Hemoterapia da Sociedade Brasileira de Pediatria publicaram as Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes, atualização 2026 (Diretrizes nº 32). O documento substitui o consenso de 2018, atualizado em 2021, e alinha a profilaxia da SBP ao Programa Nacional de Suplementação de Ferro do Ministério da Saúde, que desde 2022 recomenda dose fixa diária, sem cálculo por peso.

A mudança que mais cai em prova está na profilaxia do lactente a termo com peso adequado: sai o 1 mg/kg/dia contínuo dos 6 aos 24 meses e entra a dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar, em dois ciclos de três meses iniciados aos 6 e aos 12 meses. Prematuros e recém-nascidos de baixo peso seguem com a dose por peso ao nascer a partir dos 30 dias de vida. O documento também define quando investigar, os pontos de corte de hemoglobina e ferritina da OMS e o esquema de tratamento. O quadro compara 2021 com 2026.

Antes e agora

PontoConsenso SBP, destaques 2021Atualização SBP 2026
Lactente a termo, peso adequado, sem fator de risco1 mg de ferro elementar/kg/dia, dos 180 dias até o 24º mês, sem pausa (lactente em aleitamento materno exclusivo até o 6º mês).Dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar, independentemente do peso, em dois ciclos de três meses (preferencialmente aos 6 e aos 12 meses) intercalados por pausa de três meses.
Quando antecipar o inícioCom fator de risco, início aos 90 dias de vida, independentemente do tipo de alimentação.A regra dos 90 dias não aparece. Crianças que recebem leite de vaca podem precisar começar aos 4 meses, de forma articulada à introdução da alimentação complementar.
Prematuro ou baixo peso ao nascer2 mg/kg/dia (prematuro acima de 1.500 g ou termo abaixo de 2.500 g), 3 mg/kg/dia (1.000 a 1.500 g) ou 4 mg/kg/dia (abaixo de 1.000 g), a partir dos 30 dias, por um ano; depois 1 mg/kg/dia por mais um ano.Mantido: 2 mg/kg/dia (1.500 a 2.500 g), 3 mg/kg/dia (1.000 a 1.500 g) ou 4 mg/kg/dia (abaixo de 1.000 g), a partir dos 30 dias, no primeiro ano; dos 12 aos 24 meses, 1 mg/kg/dia pelo peso atual, sem interrupção.
Investigação laboratorialInvestigar deficiência de ferro, com ou sem anemia, aos 12 meses de vida; antes disso se houver fator de risco.Sem investigação rotineira no lactente saudável. Com fator de risco (prematuridade, baixo peso, falha da profilaxia, alimentação ou crescimento inadequados): hemograma, ferritina e PCR, preferencialmente entre 9 e 12 meses.
Tratamento da anemia ferropriva3 a 6 mg/kg/dia de ferro oral por seis meses ou até repor os estoques; controle com hemograma e reticulócitos em 30 a 45 dias.3 a 6 mg/kg/dia por três a seis meses ou até normalizar a hemoglobina e repor os estoques; hemograma em 30 a 45 dias esperando subida de 1,0 g/dL ou mais; na desnutrição grave, começar com 3 mg/kg/dia.

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O documento

  1. 01

    O que é a atualização 2026 da SBP sobre anemia ferropriva em lactentes e quem a assina?

    É o documento Diretrizes nº 32 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 17 de março de 2026, elaborado pelos Departamentos Científicos de Nutrologia e de Hematologia e Hemoterapia (gestão 2025-2028). Atualiza o consenso sobre anemia ferropriva publicado em 2018 e atualizado em 2021.

  2. 02

    Qual é a prevalência estimada de anemia em crianças brasileiras de 6 a 24 meses, segundo o documento?

    Entre 19% e 35%, com base em dados nacionais e revisões sistemáticas. A deficiência de ferro é a principal causa de anemia em lactentes e associa-se a prejuízo do crescimento e do desenvolvimento neurocognitivo e motor, com efeitos que podem persistir depois da correção dos parâmetros hematológicos.

Profilaxia no lactente a termo

  1. 03

    Qual é o esquema de suplementação profilática de ferro para o lactente saudável, nascido a termo e com peso adequado?

    Ferro medicamentoso dos 6 aos 24 meses, na dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar, independentemente do peso, em dois ciclos de três meses de uso diário, iniciados preferencialmente aos 6 e aos 12 meses, com pausa de três meses entre eles.

  2. 04

    Como fica a linha do tempo da profilaxia na Figura 2 do documento?

    Ciclo I dos 6 aos 9 meses (ferro elementar 10 a 12,5 mg/dia por três meses seguidos); pausa dos 9 aos 12 meses; ciclo II dos 12 aos 15 meses (mesma dose por três meses seguidos); dos 15 aos 24 meses, término da suplementação.

  3. 05

    De onde vem o esquema de dose fixa em ciclos adotado pela SBP?

    Do Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF) do Ministério da Saúde, que desde 2022 recomenda dose fixa diária de 10 a 12,5 mg de ferro elementar para crianças de 6 a 24 meses, em dois ciclos de três meses. O esquema considera o período de maior vulnerabilidade à deficiência de ferro, a demanda do crescimento e a integração ao calendário de consultas de puericultura.

  4. 06

    O que mudou em relação ao consenso de 2018, atualizado em 2021?

    Em 2021 a recomendação para o lactente a termo com peso adequado era 1 mg de ferro elementar/kg/dia, com início aos 6 meses e manutenção até os 24 meses, podendo ser antecipada por fatores de risco. Em 2026 a dose passa a ser fixa (10 a 12,5 mg/dia), sem cálculo por peso, e em dois ciclos de três meses em vez de uso contínuo.

  5. 07

    Em que situação a profilaxia pode começar antes dos 6 meses no lactente a termo?

    Nas crianças que recebem leite de vaca, que podem precisar iniciar a suplementação profilática a partir dos 4 meses, de forma articulada à introdução e à composição da alimentação complementar, conforme o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras menores de 2 anos.

  6. 08

    Em que contexto a OMS recomenda a suplementação diária de ferro como intervenção de saúde pública?

    Quando a prevalência de anemia é elevada, acima de 40%.

Prematuros e baixo peso

  1. 09

    Como é a profilaxia de ferro no recém-nascido prematuro e/ou com baixo peso ao nascer no primeiro ano?

    Início aos 30 dias de vida, com dose ajustada pelo peso ao nascer, mantida durante o primeiro ano: 2 mg/kg/dia entre 1.500 g e 2.500 g; 3 mg/kg/dia entre 1.000 g e 1.500 g; 4 mg/kg/dia abaixo de 1.000 g. O motivo é a maior depleção e o maior consumo das reservas de ferro nesse grupo.

  2. 10

    E dos 12 aos 24 meses, como fica a profilaxia do prematuro ou do baixo peso?

    Suplementação diária de ferro elementar na dose de 1 mg/kg/dia, calculada pelo peso atual, sem interrupções. Em qualquer fase da profilaxia desse grupo, quando a criança recebe fórmula infantil, a oferta de ferro da fórmula entra no cálculo da suplementação medicamentosa necessária.

  3. 11

    Quais crianças precisam de avaliação individual antes da profilaxia de rotina?

    As que usam outros suplementos com vitaminas e minerais (avaliar necessidade, duração e dose), as com condições associadas a sobrecarga de ferro, como transfusão crônica, e as que usam fortificação domiciliar. Diante do diagnóstico de anemia, a conduta deixa de ser profilática e passa a seguir o tratamento.

Alimentação e prevenção

  1. 12

    Quais medidas do parto e do primeiro ano o documento destaca para prevenir a deficiência de ferro?

    Clampeamento do cordão umbilical preferencialmente após o primeiro minuto de vida; aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e complementado até 2 anos ou mais; alimentação complementar diversificada a partir do sexto mês, com ferro heme (carnes bovina, suína, aves e peixes) e alimentos ricos em vitamina C; evitar leite de vaca no primeiro ano. Sem aleitamento, a fórmula infantil é a melhor opção, até por volta dos 12 meses.

  2. 13

    Por que o leite de vaca no primeiro ano é fator de risco para anemia ferropriva?

    Pelo baixo teor e baixa biodisponibilidade de ferro, pelo potencial de inibir a absorção do mineral e pelo risco de microssangramentos intestinais, que aumentam as perdas.

  3. 14

    O que favorece e o que reduz a absorção do ferro da dieta?

    Favorecem: ferro heme, ácido ascórbico, acidez gástrica adequada e maior demanda (crescimento acelerado, deficiência de ferro). Reduzem: fitatos, polifenóis (chá e café), excesso de cálcio, fibras, fosfatos, proteínas do leite e da soja, inflamação (que eleva a hepcidina) e condições que comprometem a acidez gástrica ou a mucosa intestinal.

Diagnóstico

  1. 15

    O lactente saudável precisa de exames de rotina para rastrear deficiência de ferro?

    Não. Lactentes saudáveis, com crescimento adequado e alimentação apropriada à idade, não precisam de investigação laboratorial rotineira. Nos grupos de risco (prematuridade, baixo peso ao nascer, falha na profilaxia, alimentação pobre em ferro biodisponível ou crescimento inadequado) pode-se pedir hemograma, ferritina sérica e PCR entre 9 e 12 meses de vida, ou quando o profissional julgar pertinente.

  2. 16

    Quais são os pontos de corte de hemoglobina da OMS (2024) para anemia reproduzidos no documento?

    6 a 23 meses: abaixo de 10,5 g/dL; 24 a 59 meses: abaixo de 11,0; 5 a 11 anos: abaixo de 11,5; 12 a 14 anos (meninos e meninas não grávidas): abaixo de 12,0; 15 a 65 anos: abaixo de 12,0 em mulheres não grávidas e abaixo de 13,0 em homens. Gestantes: abaixo de 11,0 no primeiro e no terceiro trimestre e abaixo de 10,5 no segundo.

  3. 17

    Quais são os pontos de corte de ferritina para deficiência de ferro, com e sem inflamação?

    Sem inflamação (PCR normal): ferritina abaixo de 12 mcg/L em menores de 5 anos e abaixo de 15 mcg/L a partir dos 5 anos e em adolescentes. Com infecção ou inflamação (PCR elevada): abaixo de 30 mcg/L em menores de 5 anos e abaixo de 70 mcg/L a partir dos 5 anos. A ferritina é proteína de fase aguda e deve ser lida junto com PCR ou VHS.

  4. 18

    Como os exames se comportam nos três estágios da deficiência de ferro?

    Depleção dos estoques: ferritina diminuída, com morfologia, ferro sérico, TIBC e saturação da transferrina normais. Deficiência de ferro: ferritina e ferro sérico diminuídos, TIBC aumentada, saturação diminuída, morfologia ainda normal. Anemia ferropriva: tudo isso mais VCM e HCM diminuídos (microcitose e hipocromia) e RDW aumentado. O conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos (CHr) é marcador sensível e precoce.

  5. 19

    Quais diagnósticos diferenciais o documento lista quando não há resposta ao ferro ou os achados são atípicos?

    Traços de alfa e beta-talassemia (o alfa pode aparecer como hemoglobina Bart's na triagem neonatal; sem isso, só biologia molecular, mutações alfa3.7 ou alfa4.2; o beta exige eletroforese de hemoglobina, de preferência após o sexto mês), anemia da inflamação, deficiência de cobre, anemia sideroblástica e anemia ferropriva refratária ao ferro (IRIDA). A triagem neonatal exclui doença falciforme.

Tratamento

  1. 20

    Qual é a dose e a duração do tratamento da anemia ferropriva no lactente?

    Sais de ferro por via oral, 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar, em dose única diária ou fracionada, por três a seis meses ou até normalizar a hemoglobina e repor os estoques. Em crianças com desnutrição grave, começar com 3 mg/kg/dia na fase de reabilitação e ajustar conforme a evolução. Corrigir o fator causal sempre que possível.

  2. 21

    Como monitorar a resposta ao tratamento e o que fazer se ela não vier?

    Hemograma entre 30 e 45 dias após o início, esperando aumento da hemoglobina igual ou superior a 1,0 g/dL. Sem resposta, investigar baixa adesão, dose inadequada, persistência da causa, diagnóstico incorreto ou inflamação. A avaliação final considera a normalização da hemoglobina, dos índices (VCM, HCM e RDW) e da ferritina ao término do tratamento.

  3. 22

    O que o documento diz sobre as formulações de ferro oral e sobre o ferro venoso?

    As evidências não mostram superioridade consistente entre as formulações orais; a dose é calculada pelo ferro elementar, não pelo sal (sulfato ferroso cerca de 20%, fumarato ferroso cerca de 33%, gluconato ferroso cerca de 12%, ferro carbonila cerca de 98%). Carboximaltose férrica e derisomaltose férrica não são recomendadas em pediatria. Ferro parenteral, eritropoietina ou transfusão só em conjunto com especialista, quando não há resposta ao ferro oral.

Pontos de prova

  1. 23

    Cite fatores de risco para deficiência de ferro listados no Quadro 1 do documento.

    Maternos: baixa reserva de ferro, gestações múltiplas, curto intervalo intergestacional, ausência de suplementação na gestação, diabetes gestacional. Diminuição da oferta: clampeamento precoce do cordão, aleitamento exclusivo prolongado sem introdução alimentar adequada, leite de vaca antes dos 12 meses. Demanda aumentada: prematuridade, baixo peso, crescimento rápido nos dois primeiros anos. Também perdas sanguíneas, má absorção (doença celíaca, redução da acidez gástrica), inflamação crônica, obesidade, parasitoses e baixa adesão à profilaxia.

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Fonte

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia; Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes: atualização 2026. Diretrizes nº 32, 17 de março de 2026. Rio de Janeiro: SBP, 2026. 18 p. ISBN 978-85-88520-69-1. Comparação com: SBP. Consenso sobre anemia ferropriva: atualização, destaques 2021. São Paulo: SBP, 2021. PDF integral no site da SBP

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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