Clostridioides difficile: o que muda com a atualização da AGA 2026
Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .
No fim de junho de 2026 a American Gastroenterological Association publicou online uma atualização de prática clínica sobre a infecção por Clostridioides difficile em adultos. São 14 orientações de boas práticas, da prevenção ao manejo da colite fulminante e das recorrências, escritas por um grupo de especialistas e sem gradação formal de evidência.
Para a prova, três pontos pesam mais: a fidaxomicina passa a ser a primeira escolha na doença não fulminante, o metronidazol sai de cena fora da forma fulminante e as terapias com microbiota fecal entram de forma definida a partir da segunda recorrência. O quadro e os flashcards seguem o texto das 14 orientações.
Da infecção inicial à recorrência: o que a AGA orienta
| Situação | Como reconhecer | Conduta |
|---|---|---|
| Não grave | Diarreia aguda compatível, em geral após antibiótico, com teste laboratorial de apoio e sem critérios de gravidade. | Fidaxomicina 200 mg VO 2x/dia por 10 dias (preferida). Vancomicina 125 mg VO 4x/dia por 10 dias é aceitável. Sem metronidazol. |
| Grave | Leucócitos acima de 15.000/µL e/ou creatinina acima de 1,5 vez o basal. | Mesmos esquemas da doença não fulminante. Maior risco de recorrência e de desfechos ruins. |
| Fulminante | Achados adicionais de choque, íleo ou megacólon. | Vancomicina 500 mg 6/6 h VO ou enteral + metronidazol 500 mg IV 8/8 h. Com íleo, vancomicina retal 500 mg 6/6 h. Equipe multidisciplinar. |
| 1ª recorrência | Segundo episódio em até 8 semanas após o fim do tratamento. | Vancomicina em esquema de desmame ou fidaxomicina. Avaliar o risco de nova recorrência e considerar restauração da microbiota. |
| 2ª recorrência | Terceiro episódio. | Tratar o episódio e, em seguida, oferecer terapia com microbiota fecal: produtos de microbiota fecal (live-brpk, live-jslm) ou transplante convencional. |
25 flashcards para revisar
Leia com as respostas à vista ou ative o modo estudo para se testar. O baralho completo pode ser importado no Anki.
Prevenção e diagnóstico
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01
Como a AGA orienta prevenir a infecção por C. difficile nos serviços de saúde?
Proteção de barreira adequada e desinfecção com agentes esporicidas aprovados pela EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.
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02
Que orientações o paciente deve receber sobre prevenção em casa?
Importância da lavagem das mãos e considerar desinfetar as áreas da casa possivelmente contaminadas por esporos, para evitar reinfecção. Tranquilizar: a transmissão a familiares não afetados é incomum.
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03
Como se faz o diagnóstico da infecção por C. difficile segundo a AGA 2026?
É um diagnóstico clínico: sintomas compatíveis (tipicamente diarreia aguda após antibiótico) somados a teste laboratorial de apoio. O teste em múltiplas etapas é o preferido, pela melhor acurácia.
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04
Testes discordantes em paciente com alta suspeita clínica: tratar ou não?
Tratar. Com alta suspeita clínica, a discordância entre os testes não deve impedir o tratamento.
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05
Depois do tratamento, quando repetir o exame de fezes?
Não fazer teste de cura de rotina. Testar as fezes apenas se houver piora persistente da diarreia.
Classificação de gravidade
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06
Em que categorias o paciente internado com C. difficile deve ser classificado no diagnóstico?
Não grave, grave ou fulminante.
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07
Quais achados laboratoriais indicam infecção grave?
Leucócitos acima de 15.000 células/µL e/ou creatinina acima de 1,5 vez o valor basal. Indicam também maior risco de recorrência e de desfechos ruins.
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08
O que define a infecção fulminante?
Achados adicionais de choque, íleo ou megacólon. Pode ser fatal.
Tratamento do episódio não fulminante
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09
Qual é a primeira escolha para a infecção não fulminante, e por quê?
Fidaxomicina 200 mg por via oral, 2 vezes ao dia, por 10 dias. É um agente de espectro mais estreito e tem menores taxas de recorrência.
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10
A vancomicina oral ainda é aceitável? Em que dose?
Sim, por considerações práticas: vancomicina 125 mg por via oral, 4 vezes ao dia, por 10 dias.
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11
Qual é o lugar do metronidazol no tratamento da infecção por C. difficile?
Não deve ser usado fora da doença fulminante.
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12
Colestiramina e outros sequestradores de ácidos biliares têm papel no tratamento?
Não devem ser usados como monoterapia nem junto com vancomicina ou fidaxomicina oral. O psyllium pode ser usado para dar consistência às fezes em quem já se recuperou da infecção.
Recorrência
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13
Como a AGA define a primeira recorrência, e como tratá-la?
Segundo episódio em até 8 semanas após completar o tratamento. Tratar com vancomicina em esquema de desmame ou com fidaxomicina.
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14
Além do antibiótico, o que o tratamento da infecção deve incluir?
Avaliação do risco de recorrência e consideração de terapia de restauração da microbiota para prevenir recorrência.
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15
Quando as terapias com microbiota fecal devem ser oferecidas?
Após o tratamento da segunda recorrência, ou seja, do terceiro episódio. Valem os produtos de microbiota fecal (esporos de microbiota fecal, live-brpk; microbiota fecal, live-jslm) e o transplante de microbiota fecal convencional.
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16
A restauração da microbiota pode ser considerada mais cedo? Em quem?
Sim, após o tratamento do episódio inicial ou da primeira recorrência, em pacientes com alto risco de novas recorrências ou cujo episódio inicial foi especialmente mórbido ou difícil de tratar.
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17
Em quem a vancomicina supressiva prolongada pode ser considerada como profilaxia secundária?
Pode ser considerada em pacientes com múltiplas recorrências que não são candidatos às terapias com microbiota fecal (comorbidades em curso, expectativa de vida limitada, uso contínuo ou frequente de antibióticos sistêmicos) ou que não responderam a múltiplos cursos dessas terapias. Esquema: vancomicina 125 mg uma vez ao dia, em dose baixa e prolongada.
Doença fulminante
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18
Qual é o esquema antimicrobiano da infecção fulminante?
Vancomicina em dose alta, 500 mg a cada 6 horas por via oral ou enteral, com metronidazol 500 mg intravenoso a cada 8 horas. Manejo por equipe multidisciplinar: gastroenterologia ou infectologia, cirurgia e clínica ou terapia intensiva.
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19
O que acrescentar ao esquema da doença fulminante se houver íleo?
Vancomicina retal 500 mg a cada 6 horas.
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20
Transplante de microbiota fecal tem lugar na doença fulminante?
Sim. O transplante em múltiplas doses, com fezes frescas de doador direcionado ou de banco de fezes institucional, administrado por endoscopia baixa, deve ser considerado.
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21
Rebyota e Vowst podem ser usados na doença grave ou fulminante?
Não. Microbiota fecal live-jslm (Rebyota) e esporos de microbiota fecal live-brpk (Vowst) não foram estudados nem aprovados para infecção grave ou fulminante.
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22
Como conduzir o paciente que se recuperou de infecção grave ou fulminante?
Pelo alto risco de recorrência, manter vancomicina em esquema supressivo até que um transplante de microbiota fecal definitivo possa ser feito em regime ambulatorial.
Prevenção de novos episódios
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23
Vancomicina profilática durante antibiótico sistêmico e probióticos: a AGA recomenda?
Não, nos dois casos. Vancomicina durante antibioticoterapia sistêmica não é aconselhada para prevenir a infecção, e probióticos não são aconselhados para prevenir episódio inicial ou recorrente. Para restaurar a microbiota, orientar dieta saudável com variedade de frutas e vegetais, rica em fibras solúveis e insolúveis.
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24
O inibidor de bomba de prótons precisa ser suspenso?
O uso deve ser avaliado durante o tratamento e na prevenção da recorrência. Se houver indicação legítima, não é necessário suspender.
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25
Qual é a orientação sobre antibióticos para quem já teve infecção por C. difficile?
Aconselhar especificamente a evitar antibioticoterapia desnecessária.
Fonte
Fischer M, Vaughn BP, Peery AF, Kelly CR. AGA Clinical Practice Update on Management of Clostridioides difficile Infection in Adults: Expert Review. Clin Gastroenterol Hepatol. 2026;24(9):2359-2369. As 14 orientações (best practice advice) estão publicadas na íntegra pela AGA em gastro.org. doi:10.1016/j.cgh.2026.05.007
Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.