Mateus Cavarzan

Critérios de Roma V: o que mudou na síndrome do intestino irritável e nos distúrbios intestinais

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em maio de 2026, a Fundação Roma publicou na Gastroenterology a quinta revisão dos critérios para os distúrbios da interação intestino-cérebro. O artigo sobre os distúrbios intestinais classifica seis entidades: síndrome do intestino irritável, constipação crônica, diarreia funcional, distensão abdominal funcional, distúrbio intestinal não classificado e constipação induzida por opioides. Dois nomes perdem o termo "funcional": a constipação funcional vira constipação crônica, e o distúrbio intestinal funcional não especificado vira distúrbio intestinal não classificado.

A mudança que mais cai em prova está na síndrome do intestino irritável. O Roma V devolve o "desconforto abdominal" ao critério, baixa a frequência exigida de pelo menos 1 dia por semana para pelo menos 3 dias por mês e exige que a dor seja recorrente, não contínua. Os subtipos pela escala de Bristol continuam os mesmos. Os flashcards cobrem os critérios de cada distúrbio, os exames que o comitê recomenda ou não e os tratamentos por sintoma predominante.

Antes e agora

PontoRoma IV (2016)Roma V (2026)
Sintoma central da SIIApenas dor abdominal; o desconforto havia sido retirado.Dor e/ou desconforto abdominal.
Frequência exigida na SIIPelo menos 1 dia por semana.Pelo menos 3 dias por mês, em média, nos últimos 3 meses.
Caráter da dor na SIINão havia a especificação de dor não contínua nem o critério de apoio sobre a menstruação; os dois são novos.Recorrente, mas não contínua, para separar da síndrome de dor abdominal de mediação central. Critério de apoio novo: a dor não deve estar relacionada apenas à menstruação.
Nomes dos distúrbiosConstipação funcional; distúrbio intestinal funcional não especificado.Constipação crônica; distúrbio intestinal não classificado. Diarreia funcional e distensão abdominal funcional mantêm o nome.
Diarreia funcionalNão exigia o critério sobre fezes endurecidas; o artigo diz que ele foi acrescentado.Acrescenta um segundo critério: fezes endurecidas raramente presentes sem medicação que cause constipação.

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A classificação

  1. 01

    Quais são os seis distúrbios intestinais do Roma V?

    Síndrome do intestino irritável (SII), constipação crônica, diarreia funcional, distensão abdominal funcional, distúrbio intestinal não classificado e constipação induzida por opioides.

  2. 02

    Por que o Roma V trocou "constipação funcional" por "constipação crônica"?

    Para acompanhar a tendência da terminologia de Roma de abandonar o termo "funcional". O comitê preferiu "constipação crônica" a "constipação idiopática crônica" para destacar que ela raramente é secundária a causa orgânica. Os três termos podem ser considerados intercambiáveis.

  3. 03

    Qual é o requisito temporal dos critérios de SII, constipação crônica, diarreia funcional, distensão abdominal funcional e distúrbio intestinal não classificado?

    Critérios preenchidos nos últimos 3 meses, com início dos sintomas pelo menos 6 meses antes do diagnóstico. O quadro de critérios da constipação induzida por opioides não traz essa nota temporal.

Síndrome do intestino irritável

  1. 04

    Quais são os critérios diagnósticos de Roma V para a síndrome do intestino irritável?

    Dor ou desconforto abdominal recorrente, mas não contínuo, em média pelo menos 3 dias por mês nos últimos 3 meses, associado a dois ou mais de: relação com a defecação; associação com mudança na frequência das fezes; associação com mudança na forma das fezes. Início dos sintomas pelo menos 6 meses antes do diagnóstico.

  2. 05

    O que mudou do Roma IV para o Roma V no sintoma central da SII?

    O desconforto abdominal voltou ao critério. O Roma IV aceitava apenas dor. Estudos mostraram pacientes com SII que relatam desconforto sem dor, sobretudo em alguns países.

  3. 06

    Qual é a frequência mínima de dor ou desconforto na SII pelo Roma V, e por que ela foi reduzida?

    Pelo menos 3 dias por mês, em média, nos últimos 3 meses. O Roma IV exigia pelo menos 1 dia por semana, e o estudo epidemiológico global da Fundação Roma mostrou que esse limiar mais alto foi o principal motivo da queda da prevalência de SII em relação ao Roma III.

  4. 07

    Por que o Roma V exige que a dor da SII seja recorrente, mas não contínua?

    Para diferenciar a SII da síndrome de dor abdominal de mediação central.

  5. 08

    Qual é o critério de apoio acrescentado pelo Roma V para a SII?

    A dor ou o desconforto abdominal não deve estar relacionado apenas à menstruação, para diferenciar a SII de sintomas relacionados ao ciclo menstrual.

  6. 09

    Como se definem os subtipos SII-C, SII-D e SII-M?

    Pela forma das fezes na escala de Bristol nos dias com pelo menos uma evacuação anormal. SII-C: mais de 25% das evacuações com tipos 1 ou 2 e menos de 25% com tipos 6 ou 7. SII-D: mais de 25% com tipos 6 ou 7 e menos de 25% com tipos 1 ou 2. SII-M: mais de 25% com tipos 1 ou 2 e mais de 25% com tipos 6 ou 7. SII-U: quando o hábito intestinal não se encaixa em nenhum dos três.

  7. 10

    Que condições a Tabela 1 exige para subtipar a SII com segurança?

    Pelo menos 4 dias de hábito intestinal anormal por mês; avaliação apenas nos dias com evacuação anormal; paciente fora de qualquer terapia para o hábito intestinal, incluindo laxantes e antidiarreicos. Para ensaios clínicos, diário de pelo menos 2 semanas com a regra dos 25%.

  8. 11

    A SII é um diagnóstico de exclusão?

    Não. O diagnóstico deve ser positivo, baseado nos sintomas. Quando os critérios estão preenchidos e não há sinais de alarme, os exames devem ser seletivos e limitados.

Exames na SII

  1. 12

    Qual é o valor da proteína C reativa e da calprotectina fecal para afastar doença inflamatória intestinal na suspeita de SII?

    PCR abaixo de 0,5 mg/dL associa-se a probabilidade de DII menor que 1%. Calprotectina fecal de até 50 µg/g tem valor preditivo negativo de 99,8%, mas valor preditivo positivo de apenas 9%. VHS e lactoferrina fecal têm pouco valor.

  2. 13

    Como investigar doença celíaca na SII, e qual é a prevalência esperada?

    A maioria das diretrizes de SII recomenda sorologia com antitransglutaminase tecidual IgA mais dosagem de IgA sérica total, para afastar deficiência seletiva de IgA. A sensibilidade cai em quem já faz dieta sem glúten. Meta-análise de 2017 encontrou 3,3% de doença celíaca confirmada por biópsia em pacientes com SII.

  3. 14

    Que exames o comitê do Roma V não recomenda na avaliação inicial da SII?

    Teste respiratório para supercrescimento bacteriano ou disbiose; pesquisa de sangue oculto, FIT ou DNA fecal para diferenciar SII de doença estrutural; elastase fecal de rotina; teste de rotina para má digestão de lactose; dosagem de dissacaridases para deficiência de sacarase-isomaltase; pesquisa de má absorção de ácidos biliares na avaliação inicial.

  4. 15

    Quando a colonoscopia na suspeita de SII-D deve incluir biópsias?

    Quando ela for realizada na suspeita de SII-D, o clínico deve considerar biópsias para afastar colite microscópica. Sem sinais de alarme, o rendimento da colonoscopia é baixo: 2% em um estudo de SII sem constipação, com colite microscópica em 1,5%, sobretudo em mulheres acima de 45 anos.

Tratamento da SII

  1. 16

    Que fibra e que dieta têm a melhor evidência na SII?

    A fibra solúvel (psyllium ou ispaghula), com risco relativo de 0,83 e NNT de 7 em meta-análise de 14 ensaios; a fibra insolúvel (farelo) não mostrou benefício. Entre as dietas, a pobre em FODMAP tem a evidência mais forte em meta-análise em rede; a dieta da British Dietetic Association/NICE também superou a dieta habitual.

  2. 17

    Quais secretagogos e inibidor de transporte iônico o Roma V cita para a SII-C, e qual é o efeito adverso mais comum?

    Lubiprostona (8 µg duas vezes ao dia), linaclotida (290 µg uma vez ao dia), plecanatida (3 mg uma vez ao dia) e tenapanor (50 mg duas vezes ao dia). A diarreia é o efeito adverso mais frequente de linaclotida (18% a 20% contra 2%) e tenapanor (16% contra 3,7%); com a plecanatida ocorreu em 4% a 5% contra 1%; com a lubiprostona, náusea e diarreia.

  3. 18

    Para quais pacientes a eluxadolina não deve ser prescrita?

    História de pancreatite, disfunção do esfíncter de Oddi, abuso de álcool, colecistectomia prévia e insuficiência hepática grave.

  4. 19

    Qual neuromodulador central é o mais estudado na SII, e em que dose?

    Os antidepressivos tricíclicos. No ensaio ATLANTIS, a amitriptilina em dose baixa (10 a 30 mg à noite) melhorou a gravidade global dos sintomas em 6 meses, com boca seca e sonolência como efeitos mais comuns. Os ISRS não mostraram benefício na dor abdominal, mas podem ajudar quem tem ansiedade ou depressão associadas.

  5. 20

    Qual é o esquema de rifaximina na SII-D, e qual a resposta nos ensaios de fase 3?

    550 mg três vezes ao dia por 14 dias. Alívio adequado dos sintomas globais em 40,8% contra 31,2% com placebo, e da distensão em 39,5% contra 28,7%. Até dois retratamentos foram superiores ao placebo.

Outros distúrbios intestinais

  1. 21

    Quais são os critérios de Roma V para constipação crônica?

    Dois ou mais dos seis itens: esforço evacuatório em mais de 25% das evacuações; fezes endurecidas ou fragmentadas (Bristol 1 a 2) em mais de 25%; sensação de evacuação incompleta em mais de 25%; sensação de obstrução ou bloqueio anorretal em mais de 25%; manobras manuais em mais de 25%; menos de 3 evacuações espontâneas por semana. Mais: fezes amolecidas raramente presentes sem laxantes e critérios insuficientes para SII.

  2. 22

    O que distingue, no conceito, a constipação crônica da SII-C?

    A ausência ou presença de dor ou desconforto abdominal predominante. Alguma dor pode ocorrer na constipação crônica, mas não é o sintoma principal.

  3. 23

    Quais são os critérios de Roma V para diarreia funcional?

    Fezes amolecidas ou aquosas em mais de 25% das evacuações e fezes endurecidas raramente presentes sem medicação que cause constipação, nos últimos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses. Pacientes que preenchem critérios de SII-D são excluídos. O segundo critério é novo, acrescentado por coerência com a constipação crônica.

  4. 24

    Quais são os critérios de Roma V para distensão abdominal funcional?

    Sensação recorrente de inchaço (bloating) e/ou distensão visível em média pelo menos 1 dia por semana, predominante sobre os demais sintomas, e critérios insuficientes para SII, constipação crônica, diarreia funcional e síndrome do desconforto pós-prandial. Dor leve ligada ao inchaço e pequenas alterações do hábito intestinal podem existir, mas não predominam.

  5. 25

    Como o Roma V define a constipação induzida por opioides?

    Sintomas novos ou agravados de constipação ao iniciar, mudar ou aumentar a terapia com opioide, com dois ou mais dos mesmos seis itens da constipação crônica, mais fezes amolecidas raramente presentes sem laxantes. O tratamento espelha o da constipação crônica, acrescido dos antagonistas periféricos do receptor mu (PAMORA): metilnaltrexona, naloxegol e naldemedina.

Fonte

Corsetti M, Shin A, Lacy BE, Cash BD, Simrén M, Schmulson MJ, Hou X, Lembo A. Bowel Disorders. Gastroenterology. 2026;170(6):1261-1282. Artigo de acesso aberto (CC BY); texto integral também em theromefoundation.org. doi:10.1053/j.gastro.2026.02.003

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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