Mateus Cavarzan

H. pylori: o que mudou no V Consenso Brasileiro de 2026

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

O Núcleo Brasileiro para Estudo do Helicobacter pylori e Microbiota e a Federação Brasileira de Gastroenterologia publicaram em 2026, nos Arquivos de Gastroenterologia, o V Consenso Brasileiro sobre a infecção. São 34 recomendações votadas por 26 especialistas de todas as regiões do país, oito anos depois do IV Consenso, de 2018. O fio condutor é a resistência crescente à claritromicina, ao levofloxacino e ao metronidazol.

As mudanças que mais caem em prova estão no tratamento: a terapia tríplice clássica com IBP, amoxicilina e claritromicina deixa de ser a primeira escolha, a quádrupla com bismuto passa à frente e a vonoprazana passa a ser a alternativa preferida ao IBP quando disponível. Mudam também a idade do teste e tratamento na dispepsia, que sobe para 45 anos ou menos, e o intervalo de vigilância das lesões pré-neoplásicas, que vai de 2 para 3 anos. Os flashcards cobrem indicações, diagnóstico, esquemas e câncer gástrico.

Antes e agora

PontoIV Consenso (2018)V Consenso (2026)
Primeira linhaTríplice com IBP, amoxicilina e claritromicina por 14 dias. Quádrupla com bismuto (10 a 14 dias) e concomitante eram alternativas.Quádrupla com bismuto, tetraciclina e metronidazol por 10 a 14 dias. A tríplice com claritromicina só entra otimizada, com bismuto e/ou P-CAB no lugar do IBP. Sem bismuto: dupla com amoxicilina em dose alta ou concomitante.
AntissecretorIBP em dose plena 2x/dia; o texto sugeria preferir dose alta ou IBP de segunda geração (rabeprazol, esomeprazol). A vonoprazana 20 mg já aparecia na tabela como equivalente de dose plena.IBP continua recomendado, com tipo e dose individualizados. Quando disponível, P-CAB (vonoprazana 20 mg 2x/dia) é a alternativa preferida, sobretudo nos esquemas com claritromicina, amoxicilina e levofloxacino.
Teste e tratamento na dispepsia não investigadaMenores de 40 anos sem sinais de alarme.45 anos ou menos sem sinais de alarme (recomendação forte, 1A).
Vigilância de atrofia ou metaplasia de alto riscoEndoscopia a cada 2 anos nos estágios OLGA III ou IV.Endoscopia a cada 3 anos nos estágios OLGA/OLGIM III ou IV ou na metaplasia incompleta. Com história familiar de câncer gástrico, a cada 1 a 2 anos.
Alergia à penicilinaIBP + claritromicina + levofloxacino por 14 dias, ou esquema com doxiciclina, ou tetraciclina + metronidazol + bismuto por 14 dias.Primeira linha: quádrupla com bismuto por 10 a 14 dias ou dupla com tetraciclina + P-CAB por 14 dias. Segunda linha: opção ainda não usada ou IBP + quinolona + claritromicina por 14 dias.

25 flashcards para revisar

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Indicações de tratamento

  1. 01

    Quais são as indicações de tratamento do H. pylori na tabela do V Consenso Brasileiro?

    Gastrite crônica; úlcera péptica; dispepsia funcional ou associada ao H. pylori; dispepsia não investigada em pacientes de até 45 anos sem sinais de alarme; condições e lesões pré-neoplásicas (atrofia, metaplasia intestinal e displasia); linfoma MALT gástrico; pós-ressecção endoscópica ou cirúrgica de câncer gástrico precoce; familiares de primeiro grau de pacientes com câncer gástrico; uso prolongado planejado de AINE ou AAS; DRGE com uso periódico de IBP ou P-CAB; anemia ferropriva inexplicada ou PTI; candidatos à cirurgia bariátrica; desejo do paciente.

  2. 02

    Paciente de 42 anos com dispepsia, sem sinais de alarme e sem investigação prévia. Qual é a estratégia recomendada e com que força?

    Teste e tratamento (test-and-treat) para H. pylori, recomendado para pacientes de 45 anos ou menos com dispepsia não investigada e sem sinais de alarme. Recomendação forte, evidência de alta qualidade (1A). No IV Consenso, de 2018, o corte era menor de 40 anos.

  3. 03

    Qual é o benefício da erradicação do H. pylori na dispepsia investigada, e o que define a dispepsia funcional depois do tratamento?

    A erradicação é a primeira opção terapêutica e traz benefício modesto, mas significativo, na melhora dos sintomas (NNT de 9 a 15 para melhora e de 11 a 21 para cura). Se os sintomas persistem ou recidivam apesar da erradicação, o quadro é dispepsia funcional. Se a resolução se mantém por mais de 6 meses, é dispepsia associada ao H. pylori.

  4. 04

    Como investigar o H. pylori nos familiares de primeiro grau de pacientes com câncer gástrico, segundo a idade?

    Pais, irmãos e filhos devem ser testados e tratados se positivos. De 20 a 29 anos: teste não invasivo, quando disponível. A partir de 30 anos: endoscopia digestiva alta com biópsias de antro e corpo, para diagnosticar a infecção e estadiar a mucosa. Recomendação fraca, evidência de baixa qualidade (2C).

  5. 05

    Paciente vai iniciar AAS em uso prolongado. O que o consenso recomenda quanto ao H. pylori?

    Testar e erradicar a infecção, se possível antes de iniciar o tratamento. Vale para AAS, AINE e antiagregantes, porque a infecção aumenta o risco de lesão gástrica e de sangramento (cerca de 1,7 vez com antitrombóticos e cerca de 8,4 vezes com antiagregantes). Recomendação forte (1A).

  6. 06

    Anemia ferropriva sem causa aparente e PTI. O H. pylori entra na investigação?

    Sim. Testar e erradicar o H. pylori em adultos com anemia ferropriva inexplicada (depois de endoscopia, colonoscopia e exclusão de outras causas) e/ou PTI. Recomendação forte (1A). A erradicação somada ao ferro é mais eficaz que o ferro isolado, e na PTI há resposta plaquetária sustentada em cerca de 40% a 50% dos casos.

  7. 07

    Por que a DRGE em uso crônico de IBP ou P-CAB virou indicação de testar e tratar o H. pylori?

    Porque o uso crônico de antissecretor em quem tem a infecção facilita a migração da bactéria do antro para o corpo gástrico, com gastrite de predomínio em corpo e escores de atrofia de corpo duas a três vezes maiores. São condições de risco para câncer gástrico, prevenidas pela erradicação precoce. Recomendação forte (1A).

  8. 08

    O que fazer quanto ao H. pylori antes de uma cirurgia bariátrica?

    Endoscopia digestiva alta e teste diagnóstico para H. pylori antes da cirurgia, qualquer que seja a técnica. Se positivo, erradicar e confirmar a cura. Recomendação fraca, evidência de qualidade muito baixa (2C). Nos estudos brasileiros incluídos em revisão sistemática, a prevalência da infecção em pessoas com obesidade foi de 48,9%.

Diagnóstico

  1. 09

    Qual é o padrão-ouro não invasivo para diagnóstico e para confirmar a erradicação do H. pylori? Qual é a alternativa?

    O teste respiratório com ureia marcada com carbono-13. A alternativa válida é a pesquisa de antígeno fecal com anticorpo monoclonal. A sorologia serve para estudos epidemiológicos e situações clínicas específicas, mas não confirma erradicação. Recomendação forte (1A).

  2. 10

    Quando a endoscopia com biópsias é indicada para diagnosticar o H. pylori e avaliar a mucosa?

    Em pacientes com sinais de alarme; com dispepsia a partir de 40 anos; com falha da terapia antissecretora ou da estratégia de teste e tratamento; e em familiares de pacientes com câncer gástrico a partir de 30 anos. Recomendação fraca (2B).

  3. 11

    Quantas biópsias colher para o diagnóstico histológico do H. pylori, e como acondicionar?

    Pelo menos quatro: duas do antro e duas do corpo, em frascos separados e identificados. A biópsia da incisura angular é desejável, não obrigatória. A histologia é o padrão-ouro invasivo (sensibilidade de 95% e especificidade de 99%); a imuno-histoquímica fica para casos especiais.

  4. 12

    O teste rápido da urease serve para confirmar a erradicação do H. pylori?

    Não. Isolado, pode ser alternativa diagnóstica onde há poucos recursos, mas não é recomendado para confirmar erradicação, porque a sensibilidade cai para cerca de 60% nessa situação. Também perde sensibilidade após gastrectomia ou cirurgia bariátrica e no sangramento ativo.

  5. 13

    Por quanto tempo suspender cada medicamento antes dos testes para H. pylori?

    Antagonistas H2: 72 horas (valor corrigido por errata; o texto original dizia 2 horas). IBP e P-CAB: 14 dias. Antibióticos e compostos de bismuto: 4 semanas. Sucralfato, alginato e antiácidos não precisam ser suspensos. Recomendação forte (1A).

Câncer gástrico

  1. 14

    Com que intervalo vigiar o paciente com atrofia ou metaplasia intestinal de alto risco (OLGA/OLGIM III ou IV, ou metaplasia incompleta)?

    Endoscopia a cada 3 anos. Se houver familiar de primeiro grau com câncer gástrico, reduzir para 1 a 2 anos. Com história familiar e OLGA/OLGIM I ou II, sugere-se a cada 3 anos. O IV Consenso, de 2018, recomendava a cada 2 anos. Recomendação forte (1B).

  2. 15

    O rastreamento populacional do H. pylori para prevenir câncer gástrico é recomendado no Brasil?

    Não. No Brasil, o rastreamento populacional não é recomendado. Em grupos de alto risco, como familiares de primeiro grau de pacientes com câncer gástrico, o rastreamento e o tratamento são recomendados. Recomendação forte (1A). A estratégia populacional é indicada em regiões de alto risco (incidência anual acima de 20 casos por 100 mil) com alta prevalência de H. pylori.

  3. 16

    Quais classificações endoscópicas o consenso recomenda para estadiar atrofia e metaplasia intestinal?

    Kimura-Takemoto para a atrofia (tipos fechado, C1 a C3, e aberto, O1 a O3) e EGGIM para a metaplasia intestinal (pontuação por NBI em antro, incisura e corpo). A classificação endoscópica deve ser integrada ao estadiamento histológico (OLGA/OLGIM). Recomendação fraca (2B).

Tratamento

  1. 17

    O que avaliar antes de prescrever o tratamento do H. pylori, segundo o consenso?

    Esquemas antimicrobianos já usados, evitando repetir claritromicina e levofloxacino; história de alergia à penicilina, esclarecendo os casos duvidosos; cautela com claritromicina e levofloxacino em quem tem prolongamento do QT; escolha do antissecretor; cessação do tabagismo; e estímulo à adesão. A meta de erradicação é acima de 90%.

  2. 18

    Qual é o papel dos P-CABs, como a vonoprazana, no tratamento do H. pylori?

    O IBP continua recomendado, com tipo e dose individualizados. Quando disponível, o P-CAB (vonoprazana 20 mg 2x/dia) é a alternativa preferida, sobretudo nos esquemas com claritromicina, amoxicilina e levofloxacino. Na quádrupla com bismuto, a eficácia é semelhante à do IBP. Recomendação fraca (2B). No Brasil o uso é off-label; a tegoprazana é dada em 50 mg 2x/dia.

  3. 19

    Quais são os esquemas de primeira linha do V Consenso quando há bismuto disponível?

    1) Quádrupla com bismuto: subcitrato de bismuto 240 mg 2x/dia, tetraciclina 500 mg 4x/dia, metronidazol 400 a 500 mg 4x/dia e IBP em dose padrão ou P-CAB 2x/dia, por 10 a 14 dias (forte na tabela 3, com evidência moderada; a recomendação 28 em bloco é 2C). 2) Tríplice com claritromicina 500 mg e amoxicilina 1 g, 2x/dia, por 14 dias, otimizada com bismuto e/ou com P-CAB no lugar do IBP. A cápsula única de bismuto, metronidazol e tetraciclina é dispensada só como kit de 10 dias.

  4. 20

    E a primeira linha sem bismuto disponível?

    Dupla com amoxicilina 3 a 4 g/dia (750 mg a 1 g, 3 ou 4x/dia) e IBP em dose alta 3 ou 4x/dia ou, de preferência, vonoprazana 20 mg 2x/dia, por 14 dias; ou tríplice com claritromicina, amoxicilina e P-CAB por 14 dias; ou terapia concomitante (claritromicina, amoxicilina, metronidazol e IBP ou P-CAB) por 14 dias. Todas com recomendação fraca. Em pessoas com obesidade, usar 1 g de amoxicilina 4x/dia.

  5. 21

    Por que a tríplice clássica com IBP, claritromicina e amoxicilina perdeu espaço?

    Pela resistência crescente. No Registro Brasileiro, ela foi usada em 95% dos 1.557 tratamentos de primeira linha, com erradicação de 78%. Fica desencorajada, exceto onde a resistência à claritromicina é menor que 15% ou a suscetibilidade foi confirmada por teste. Acrescentar bismuto à tríplice eleva a erradicação para mais de 90%.

  6. 22

    Quais são as opções de segunda linha depois da falha do primeiro esquema?

    Não repetir o esquema da primeira linha. Opções: quádrupla com bismuto, tetraciclina e metronidazol mais IBP ou P-CAB por 10 a 14 dias; amoxicilina 1 g 2x/dia, levofloxacino 500 mg 1x/dia e bismuto 240 mg 2x/dia mais IBP ou P-CAB por 14 dias; ou, sem bismuto, dupla com amoxicilina em dose alta e IBP em dose alta ou vonoprazana por 14 dias. No Hp-BraReg, acrescentar bismuto ao esquema com levofloxacino por 14 dias levou a cura de 100%.

  7. 23

    Falha de duas linhas de tratamento. Quais são os esquemas de resgate?

    Não repetir esquemas já usados com claritromicina ou levofloxacino. Opções: quádrupla com bismuto por 10 a 14 dias (pode até ser repetida, com metronidazol em dose alta); tríplice com rifabutina 150 mg 2x/dia, amoxicilina 1 g 2x/dia e IBP ou P-CAB por 14 dias, sobretudo se a quádrupla com bismuto não está disponível ou já foi usada; ou, na ausência de bismuto e rifabutina, dupla com amoxicilina em dose alta e IBP ou vonoprazana por 14 dias, ainda sem estudos confirmatórios ocidentais. A rifabutina não está no mercado brasileiro e exige hemograma durante o uso.

  8. 24

    Quando o teste de suscetibilidade antimicrobiana deve ser usado?

    Idealmente antes das tríplices com claritromicina ou com levofloxacino, quando disponível. Depois de três falhas terapêuticas, o teste deve ser usado quando disponível. A cultura é o padrão-ouro de suscetibilidade; os testes genotípicos (PCR) detectam as mutações de resistência, mas ainda não são comerciais no Brasil. Recomendação fraca (2B).

  9. 25

    Probióticos ajudam no tratamento do H. pylori?

    Cepas específicas podem aumentar a taxa de erradicação (em 8% a 16%) e reduzir os efeitos adversos dos antibióticos, mas faltam estudos para definir cepa, dose, momento e duração. Isolados, erradicam em média só 14% e não são indicados como monoterapia. Recomendação fraca (2B).

Fonte

Coelho LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2026;63:e26043. Errata: Arq Gastroenterol. 2026;63:e26E43 (anti-H2: 72 horas). Coluna "IV Consenso (2018)" do quadro conferida em Coelho LGV, et al. Arq Gastroenterol. 2018;55:97-121. doi:10.1590/S0004-2803.24612026-043

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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