Mateus Cavarzan

AVC isquêmico agudo: o que mudou na diretriz AHA/ASA 2026

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em janeiro de 2026, a American Heart Association e a American Stroke Association publicaram a nova diretriz de manejo inicial do AVC isquêmico agudo. A anterior era de 2019. A nova versão muda pontos que caem em prova: a escolha do trombolítico, a janela da trombólise e quem vai para a trombectomia.

Em resumo: a tenecteplase passa a valer tanto quanto a alteplase, a trombólise pode chegar a 9 horas em pacientes selecionados por imagem, a trombectomia alcança infartos maiores (ASPECTS de 3 a 5) e ganha recomendação forte na oclusão de artéria basilar. Controle intensivo de pressão e de glicemia deixa de ser recomendado.

Antes e agora

PontoDiretriz de 2019Diretriz de 2026
Trombolítico em até 4,5 hAlteplase como escolha; tenecteplase como alternativa.Tenecteplase 0,25 mg/kg ou alteplase 0,9 mg/kg, com a mesma força de recomendação.
Janela da trombóliseAté 4,5 h. Início desconhecido só com RM (DWI-FLAIR).Até 9 h em pacientes com penumbra salvável na perfusão.
Trombectomia e tamanho do infartoExigia ASPECTS ≥ 6.Recomendada com ASPECTS de 3 a 10 em até 6 h, e de 3 a 5 entre 6 e 24 h em selecionados.
Oclusão de artéria basilarBenefício incerto.Recomendação forte em até 24 h, com NIHSS ≥ 10 e PC-ASPECTS ≥ 6.
Pressão após reperfusãoManter abaixo de 180/105 mmHg.Mesmo alvo. Reduzir a sistólica para menos de 140 mmHg não é recomendado e é prejudicial após trombectomia.

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Trombólise

  1. 01

    Quais trombolíticos a diretriz AHA/ASA 2026 recomenda no AVC isquêmico com até 4,5 horas, e em que dose?

    Tenecteplase 0,25 mg/kg (máximo 25 mg, em bolus único) ou alteplase 0,9 mg/kg (máximo 90 mg, 10% em bolus e o restante em 60 minutos). As duas têm a mesma força de recomendação.

  2. 02

    Tenecteplase na dose de 0,4 mg/kg é uma opção no AVC isquêmico agudo?

    Não. A dose de 0,4 mg/kg não é recomendada. A dose correta é 0,25 mg/kg, com máximo de 25 mg.

  3. 03

    Paciente com déficit incapacitante, NIHSS baixo e 3 horas de sintomas. Trombolisa? Precisa de angiotomografia ou perfusão antes?

    Trombolisa. O critério é o déficit ser incapacitante, qualquer que seja o NIHSS. Em até 4,5 horas, o tratamento não deve ser atrasado por imagem avançada.

  4. 04

    AVC com déficit leve e não incapacitante (por exemplo, síndrome sensitiva isolada) em até 4,5 horas. Qual a conduta?

    Não trombolisar. A trombólise não se mostrou superior à dupla antiagregação nesse grupo, e a dupla antiagregação é o tratamento recomendado.

  5. 05

    No AVC menor (NIHSS ≤ 3) não cardioembólico ou no AIT de alto risco (ABCD2 ≥ 4), sem trombólise, qual o esquema de dupla antiagregação?

    AAS mais clopidogrel, com dose de ataque de clopidogrel, iniciados em até 24 horas do início dos sintomas e mantidos por 21 dias. Depois, antiagregante único.

  6. 06

    AVC de início desconhecido, identificado há menos de 4,5 horas. Que achados de ressonância permitem trombolisar?

    Lesão na difusão (DWI) menor que um terço do território da artéria cerebral média e ausência de alteração marcada no FLAIR. É o chamado mismatch DWI-FLAIR.

  7. 07

    Em quem a trombólise pode ser feita entre 4,5 e 9 horas?

    Em pacientes com penumbra salvável na perfusão automatizada que estejam entre 4,5 e 9 horas do último momento em que foram vistos bem, ou que acordaram com sintomas até 9 horas depois do ponto médio do sono.

  8. 08

    Oclusão de grande vaso entre 4,5 e 24 horas, com penumbra salvável, em serviço sem trombectomia. Existe alguma opção de reperfusão?

    Sim. A trombólise venosa pode ser considerada, conduzida por equipe com experiência em trombólise no AVC.

  9. 09

    Argatroban ou eptifibatide associados à trombólise melhoram o desfecho?

    Não. Os estudos não mostraram benefício, e antitrombóticos adjuvantes não são recomendados junto com a trombólise.

Trombectomia

  1. 10

    Paciente elegível para trombólise e para trombectomia. Faz as duas? Em que ordem?

    Faz as duas. A trombólise é dada o mais rápido possível, sem pular essa etapa e sem esperar resposta clínica para iniciar a trombectomia.

  2. 11

    Quais os critérios de trombectomia na circulação anterior em até 6 horas?

    Oclusão proximal de carótida interna ou M1, NIHSS ≥ 6, Rankin prévio de 0 a 1 e ASPECTS de 3 a 10.

  3. 12

    Quais os critérios de trombectomia na circulação anterior entre 6 e 24 horas?

    Oclusão proximal de carótida interna ou M1, NIHSS ≥ 6, Rankin prévio de 0 a 1 e ASPECTS ≥ 6.

  4. 13

    Entre 6 e 24 horas, com ASPECTS de 3 a 5, ainda há indicação de trombectomia?

    Sim, em pacientes selecionados: idade menor que 80 anos, NIHSS ≥ 6, Rankin prévio de 0 a 1 e ausência de efeito de massa significativo na imagem.

  5. 14

    E com ASPECTS de 0 a 2, em até 6 horas?

    É razoável em pacientes selecionados: idade menor que 80 anos, NIHSS ≥ 6, Rankin prévio de 0 a 1 e sem efeito de massa significativo. A recomendação é mais fraca que nas faixas de ASPECTS mais altas.

  6. 15

    Quais os critérios de trombectomia na oclusão de artéria basilar?

    Até 24 horas do início dos sintomas, NIHSS ≥ 10, PC-ASPECTS ≥ 6 e Rankin prévio de 0 a 1. Com NIHSS de 6 a 9, o benefício não está bem estabelecido.

  7. 16

    A diretriz de 2026 traz recomendação de trombectomia em crianças?

    Sim, pela primeira vez. Em crianças com 6 anos ou mais e oclusão de grande vaso, a trombectomia pode ser eficaz em até 6 horas, e entre 6 e 24 horas se houver tecido salvável, com neurointervencionista experiente.

Suporte clínico

  1. 17

    Quais os alvos de pressão arterial antes e depois da trombólise?

    Antes: abaixo de 185/110 mmHg. Depois: abaixo de 180/105 mmHg por pelo menos 24 horas.

  2. 18

    Após trombectomia com recanalização, vale baixar a pressão sistólica para menos de 140 mmHg?

    Não. O alvo é até 180/105 mmHg durante o procedimento e por 24 horas. Buscar sistólica menor que 140 mmHg nas primeiras 72 horas é prejudicial. Após trombólise, o controle intensivo também não é recomendado, por não trazer benefício.

  3. 19

    Como manejar a glicemia no AVC isquêmico agudo?

    Tratar hipoglicemia (menor que 60 mg/dL). Na hiperglicemia persistente, manter entre 140 e 180 mg/dL. Controle intensivo com insulina venosa para 80 a 130 mg/dL não é recomendado.

  4. 20

    O que mudou na escolha do hospital de destino no atendimento pré-hospitalar?

    Antes, a orientação era levar ao serviço mais próximo capaz de trombolisar. Agora, onde não há transferência inter-hospitalar rápida e bem organizada, a diretriz apoia o transporte direto ao centro mais próximo com trombectomia.

Fonte

Prabhakaran S, Gonzalez NR, Zachrison KS, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2026;57. doi:10.1161/STR.0000000000000513

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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