Lúpus e luz solar: por que o sol pode ativar a doença
Por Mateus Cavarzan, médico reumatologista e professor. Texto publicado em 25 de abril de 2023, reescrito e revisado em .
Quem tem lúpus costuma ouvir cedo que precisa fugir do sol. A orientação parece exagerada até a pessoa perceber que uma tarde de praia sem proteção pode trazer mancha no rosto, cansaço, dor nas juntas e, em alguns casos, atividade da doença em órgãos internos. A relação entre lúpus e luz solar é uma das mais bem documentadas da reumatologia.
O que é o lúpus
O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune: o sistema de defesa produz anticorpos contra componentes do próprio organismo, sobretudo do núcleo das células. Pode afetar pele, articulações, rins, sangue, pulmões, coração e sistema nervoso. É bem mais frequente em mulheres em idade fértil e evolui com períodos de calma e de atividade.
Como o sol interfere
A radiação ultravioleta (UVB e também UVA) lesa as células da pele e acelera a morte delas. Em quem tem lúpus, a limpeza dessas células mortas é menos eficiente. Restos de núcleo ficam expostos e viram alvo dos autoanticorpos. Ao mesmo tempo, a pele exposta ao sol libera interferon do tipo I e outras substâncias inflamatórias que atraem células de defesa.
O resultado aparece primeiro na pele: vermelhidão no rosto em asa de borboleta, placas em áreas expostas e lesões de lúpus cutâneo subagudo, que têm forte relação com o anticorpo anti-Ro. Mas o efeito não fica só na pele. A inflamação disparada pelo sol pode coincidir com piora geral, com cansaço, febre e dor articular, e há relatos de reativação em outros órgãos depois de exposição intensa.
Proteção no dia a dia
- Protetor solar de amplo espectro (UVA e UVB), FPS 50 ou mais, todos os dias, inclusive em casa e em dias nublados, reaplicado a cada duas horas de exposição.
- Chapéu de aba larga, óculos escuros e roupas com proteção UV ou de trama fechada.
- Evitar o sol entre 10 e 16 horas e procurar sombra ao ar livre.
- Lembrar que o UVA atravessa vidro de janela e de carro; películas protetoras ajudam.
- Conferir com o médico se algum remédio em uso aumenta a sensibilidade ao sol.
A hidroxicloroquina, usada pela grande maioria dos pacientes com lúpus, reduz a atividade da doença na pele e o risco de reativações, mas não substitui a proteção solar. Como quem evita o sol tende a ter vitamina D baixa, vale dosar e repor quando indicado.
Para quem estuda para a residência
- Fotossensibilidade era critério isolado na classificação do ACR de 1997 e saiu dos critérios EULAR/ACR de 2019, por ser pouco específica.
- Anti-Ro (SSA) está associado a fotossensibilidade, lúpus cutâneo subagudo e lúpus neonatal com bloqueio cardíaco congênito.
- O eritema malar poupa o sulco nasolabial, um detalhe que ajuda a diferenciar da dermatomiosite e da dermatite seborreica.
- Hidroxicloroquina é indicada para praticamente todos os pacientes com LES, salvo contraindicação, com rastreio de retinopatia.
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um médico, que é quem pode fazer o diagnóstico e indicar o tratamento de cada pessoa.