Dedos roxos no frio: quando é Fenômeno de Raynaud e quando se preocupar
Por Mateus Cavarzan, médico reumatologista e professor. Texto publicado em 7 de junho de 2023, reescrito e revisado em .
Os dedos ficam brancos de repente quando você pega algo na geladeira, depois arroxeiam, formigam e, quando aquecem, ficam vermelhos e latejando. Esse roteiro tem nome: Fenômeno de Raynaud. É comum, quase sempre benigno, mas em uma parte das pessoas é o primeiro sinal de uma doença autoimune. Saber separar uma situação da outra é o que importa.
O que acontece nos dedos
No Raynaud, as pequenas artérias dos dedos se contraem além da conta diante do frio ou de estresse emocional. O sangue quase para de chegar e o dedo fica pálido, com um limite bem marcado entre a parte branca e a parte normal. Com o sangue parado, o pouco que resta perde oxigênio e o dedo fica roxo. Quando a artéria relaxa, o sangue volta com força e a pele fica vermelha, às vezes com dor e formigamento.
Nem todo mundo passa pelas três cores. A fase branca, bem delimitada, é a mais característica. As crises costumam durar de minutos a pouco mais de uma hora e podem atingir também pés, orelhas e ponta do nariz.
Primário ou secundário
Na maioria das pessoas o Raynaud é primário: não há doença por trás. Começa em geral na adolescência ou no início da vida adulta, é mais comum em mulheres, costuma acometer as duas mãos de forma simétrica e não deixa feridas. Os exames costumam vir normais, no máximo com FAN em título baixo.
O Raynaud secundário é aquele que acompanha outra condição. A principal é a esclerose sistêmica, em que o Raynaud está presente em mais de 90% dos casos e muitas vezes aparece anos antes do endurecimento da pele. Também pode acompanhar o lúpus, a doença mista do tecido conjuntivo, a síndrome de Sjögren e as miopatias inflamatórias. Fora das doenças autoimunes, entram na lista alguns medicamentos (betabloqueadores, derivados do ergot, estimulantes e alguns quimioterápicos), o uso prolongado de ferramentas que vibram, o tabagismo e doenças que deixam o sangue mais espesso, como a crioglobulinemia.
Sinais de alerta
Vale procurar avaliação médica, de preferência com reumatologista, quando aparece algum destes sinais:
- Início depois dos 30 ou 40 anos.
- Crises muito dolorosas, assimétricas ou em um dedo só.
- Feridas ou cicatrizes em ponta de dedo, ou um dedo que fica escuro e não volta à cor normal.
- Pele dos dedos inchada ou endurecida, dificuldade para engolir, dor nas articulações, manchas na pele ou febre.
- Alterações nos capilares da base da unha vistas no exame.
Na investigação, dois exames simples ajudam muito: o FAN (fator antinuclear) e a capilaroscopia periungueal, que olha os pequenos vasos da base da unha com aumento. Capilares dilatados, gigantes, com pequenas hemorragias ou áreas sem capilares sugerem doença do grupo da esclerodermia, mesmo antes de outros sintomas.
Como se cuida
No Raynaud primário, o tratamento é sobretudo proteção. Aquecer o corpo inteiro, não só as mãos, porque o frio no tronco também dispara a crise. Luvas, meias e camadas de roupa, evitar mudanças bruscas de temperatura e não fumar. Diante de uma crise, aquecer as mãos em água morna ou embaixo das axilas e movimentar os braços ajuda.
Quando as crises são frequentes, dolorosas ou atrapalham a rotina, há remédios que dilatam os vasos. Os bloqueadores dos canais de cálcio, como nifedipino e anlodipino, são a primeira escolha. No Raynaud secundário com feridas, o tratamento é conduzido pelo reumatologista, com outras classes de vasodilatadores e o tratamento da doença de base.
Para quem estuda para a residência
- Sequência clássica: palidez (isquemia), cianose (dessaturação) e rubor (hiperemia reativa).
- Primário: jovem, simétrico, sem úlceras, FAN negativo e capilaroscopia normal.
- Secundário: início tardio, assimetria, úlceras digitais, FAN positivo e capilaroscopia alterada.
- Esclerose sistêmica é a causa secundária mais associada; o Raynaud costuma ser a primeira manifestação.
- Primeira linha medicamentosa: bloqueador de canal de cálcio di-hidropiridínico.
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um médico, que é quem pode fazer o diagnóstico e indicar o tratamento de cada pessoa.