Mateus Cavarzan

Vacina contra o HPV após conização: a Nota Técnica 32/2026 do Ministério da Saúde

Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .

Em março de 2026, o Departamento do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde publicou a Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Ela recomenda incluir no SUS, como estratégia de prevenção secundária, a vacinação contra o HPV de mulheres tratadas por lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC 2+ e adenocarcinoma in situ) com procedimento excisional, como a conização ou a LEEP. A vacina vale para qualquer idade, em três doses (0, 2 e 6 meses), no mesmo ano do procedimento.

A lógica é simples: mesmo depois do tratamento, a doença persiste ou recorre em até 17% das mulheres, e o risco de câncer invasivo continua elevado por mais de 25 anos. A vacina reduz a recorrência de NIC 2 e NIC 3 e protege contra outros tipos virais. Poucos meses antes, a Anvisa ampliou a indicação da Gardasil 9 para prevenir cânceres de orofaringe e outros de cabeça e pescoço, de 9 a 45 anos. Os dois assuntos entram nos flashcards.

A nota técnica em cinco pontos

PontoOnde estáO que diz
Público-alvoItens 1.1 e 5.1Mulheres tratadas por lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC 2+ e AIS) submetidas a procedimento excisional do colo do útero (LEEP ou conização).
IdadeItem 5.2Vacinação para esse grupo independentemente da idade.
MomentoItem 5.3No mesmo ano do procedimento: no período perioperatório ou até 12 meses após o tratamento.
EsquemaItem 5.4Três doses, aos 0, 2 e 6 meses.
Onde e como registrarItens 5.5 e 5.6Nas unidades de vacinação do SUS, mediante prescrição médica e registro do CID. Registro na estratégia especial de vacinação, com o CID correspondente (NIC 2, NIC 3 ou AIS).

21 flashcards para revisar

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A recomendação

  1. 01

    O que propõe a Nota Técnica nº 32/2026 do Ministério da Saúde?

    A inclusão, no SUS, da vacinação contra o HPV como estratégia de prevenção secundária para mulheres tratadas por lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC 2+ e AIS), submetidas a procedimento excisional do colo do útero (LEEP ou conização), como grupo prioritário do PNI.

  2. 02

    Quem assina a nota técnica e com quem a decisão foi discutida?

    O Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI), da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, após discussão técnica interinstitucional com áreas do Ministério da Saúde, INCA, instituições científicas, sociedades médicas, OPAS, Conass e Conasems.

  3. 03

    Há limite de idade para vacinar a mulher tratada por NIC 2+ ou AIS?

    Não. A indicação vale independentemente da idade.

  4. 04

    Qual é o momento certo para vacinar depois do tratamento excisional?

    No mesmo ano do procedimento. A vacina pode ser aplicada no período perioperatório ou em até 12 meses após o tratamento.

  5. 05

    Qual é o esquema vacinal para esse grupo?

    Três doses, aos 0, 2 e 6 meses, independentemente da idade.

  6. 06

    Onde a vacina é aplicada e o que é preciso apresentar?

    Nas unidades de vacinação do SUS, mediante prescrição médica e registro diagnóstico correspondente ao CID. O registro é feito na estratégia especial de vacinação, com o CID do diagnóstico (NIC 2, NIC 3 ou AIS).

  7. 07

    Que medidas operacionais a nota pede aos serviços?

    Articulação entre os serviços que diagnosticam e tratam as lesões e as unidades de vacinação; orientação das equipes sobre a indicação e sobre o rastreamento de longo prazo; oferta nas unidades com sala de vacina ativa; registro nos sistemas do PNI; e manutenção do seguimento clínico conforme os protocolos vigentes.

Por que vacinar

  1. 08

    Qual é o risco de persistência ou recorrência da lesão depois do tratamento excisional, e o que acontece com procedimentos repetidos?

    Até 17%, segundo a literatura citada. Procedimentos repetidos aumentam complicações ginecológicas e obstétricas: parto prematuro, ruptura prematura de membranas e estenose cervical.

  2. 09

    Depois de tratar uma NIC 3, o risco de câncer invasivo volta ao da população geral?

    Não. Um estudo populacional sueco com mais de 130 mil mulheres tratadas por NIC 3 mostrou risco significativamente maior de câncer cervical invasivo, persistente por mais de 25 anos após o tratamento, sobretudo em mulheres com mais de 50 anos.

  3. 10

    Que benefícios a nota técnica espera da vacinação após o tratamento?

    Prevenir infecção por outros tipos virais contidos na vacina; evitar a disseminação do HPV para regiões vizinhas à lesão e para outros sítios; reduzir a recorrência de lesões de alto grau; diminuir procedimentos repetidos e suas complicações; fortalecer o controle do câncer do colo do útero; e promover equidade.

Evidências

  1. 11

    O que os estudos observacionais, os ensaios clínicos e as revisões sistemáticas mostram sobre a vacina após o procedimento excisional?

    Que a vacinação no período perioperatório ou após o procedimento está associada a redução significativa da recorrência de NIC 2 e NIC 3, em comparação com a não vacinação, com menos procedimentos novos e menos complicações.

  2. 12

    Os ensaios clínicos randomizados confirmam a redução da recorrência?

    Ainda não de forma definitiva. Os ensaios em andamento têm resultados conflitantes com os observacionais quanto à recorrência, mas mostram benefício na prevenção de infecção por novos tipos de HPV da vacina, na redução de reinfecção e na menor disseminação do vírus para áreas adjacentes e outros sítios.

  3. 13

    Que ensaio clínico em andamento a nota cita, e qual é o desfecho primário?

    Um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo do Centro Médico Erasmus, na Holanda, com a vacina nonavalente em mulheres com NIC 2 e 3 submetidas à LEEP. Desfecho primário: recorrência de lesões de alto grau após 24 meses, além de qualidade de vida e custo-efetividade.

  4. 14

    Que experiências internacionais a nota usa como referência?

    Espanha: desde 2018, recomenda e financia a vacina para mulheres submetidas à conização, em qualquer idade, com três doses. Irlanda: vacinação de resgate para mulheres com histórico de tratamento de lesão cervical (NIC 1 ou mais), com menos de 45 anos e até 48 meses após o procedimento. Chile: incorporou a vacina para lesão de alto grau, com doses no dia da intervenção, após 1 mês e após 3 meses.

Epidemiologia

  1. 15

    Quais tipos de HPV respondem pela maior parte do câncer do colo do útero e das verrugas genitais?

    Os tipos 16 e 18 causam cerca de 71% dos casos de câncer do colo do útero e mais da metade dos demais cânceres associados ao HPV. Os tipos 6 e 11 respondem por cerca de 90% das verrugas genitais.

  2. 16

    Qual a posição do câncer do colo do útero entre as mulheres brasileiras, segundo o INCA?

    Terceiro tumor mais incidente e quarta causa de morte por câncer na população feminina, com cerca de 17 mil casos novos e aproximadamente 7 mil óbitos por ano.

  3. 17

    O que o estudo POP-Brasil mostrou sobre a prevalência de HPV em jovens?

    Em pessoas de 16 a 25 anos de 26 capitais e do Distrito Federal, prevalência de 52,3% a 63,5% para qualquer tipo de HPV e de 39,8% a 53,1% para tipos oncogênicos de alto risco.

  4. 18

    Que sinalização a nota faz sobre a vacina usada no PNI?

    Ressalta a importância da futura incorporação, pelo DPNI, de uma vacina contra o HPV com maior valência, em discussão no Ministério da Saúde, para ampliar o impacto da prevenção.

Nova indicação da Gardasil 9

  1. 19

    Qual foi a nova indicação da Gardasil 9 aprovada pela Anvisa?

    Prevenção de cânceres de orofaringe e de outros cânceres de cabeça e pescoço causados pelos tipos de HPV 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, somada às indicações anteriores. A alteração foi publicada no Diário Oficial da União em 18 de dezembro de 2025 e divulgada pela Anvisa em fevereiro de 2026.

  2. 20

    Para quem vale a nova indicação da Gardasil 9?

    Meninas e mulheres de 9 a 45 anos e meninos e homens de 9 a 45 anos. Nas mulheres, a bula passa a cobrir cânceres do colo do útero, da vulva, da vagina, do ânus, de orofaringe e outros de cabeça e pescoço. Nos homens, cânceres do ânus, de orofaringe e outros de cabeça e pescoço. Em ambos, verrugas genitais pelos tipos 6 e 11, infecções persistentes e lesões pré-cancerosas pelos nove tipos.

  3. 21

    Em que se baseia a nova indicação da Gardasil 9 para cânceres de cabeça e pescoço?

    Na prevenção da infecção persistente pelos tipos oncogênicos de HPV (16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), principais agentes etiológicos desses cânceres, e na resposta imunológica robusta demonstrada contra esses tipos. A indicação é preventiva.

Fonte

BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Proposta de inclusão de mulheres diagnosticadas com NIC 2+ e AIS, submetidas a procedimento excisional do colo do útero, como grupo prioritário para vacinação contra o HPV no PNI. Brasília, março de 2026 (SEI 0054090829). Cards sobre a Gardasil 9: ANVISA. Gardasil 9: nova indicação (DOU de 18/12/2025), gov.br/anvisa. Texto integral da nota técnica (PDF)

Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.

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