Mateus Cavarzan
← Todas as escritas
Newsletter · 22 de setembro de 2026

Fiquei dias remoendo um telefonema

Mateus Cavarzan3 min de leitura

Todo e qualquer consultório de dentista deve ter uma boa revista Claudia. Daquelas que você só folheia para passar o tempo, lendo manchetes bem estilo clickbait. Tenho certeza de que em alguma edição já fizeram uma assim: "Deixe de procurar validação externa e encontre a validação interna".

Big deal. Todo mundo sabe disso. Mas quase ninguém entende isso na pele.

Eu, inclusive. E hoje vou te contar uma coisa que normalmente ficaria só dentro da sala de terapia.

Todos nós temos nossas inseguranças, caro aluno. Eu não seria diferente.

Eu amo meus pais. De verdade. Sou grato por todas as coisas que eles me deram e não estaria onde estou se não fosse pelo esforço de cada um deles durante anos.

Mas também entendo que carrego uma bagagem emocional transgeracional que, vira e mexe, ainda me afeta. Mesmo depois de anos de terapia.

Minha mãe teve uma educação extremamente rígida, em que nada do que ela fizesse estava bom. Notas perfeitas. Aprovações perfeitas. Trabalho perfeito. Prêmios. E mesmo assim, principalmente para a minha avó, nunca era suficiente.

Minha mãe não passou esse tipo de educação para mim. Porém, alguns respingos dessa crença às vezes caem sobre mim. E dói bastante.

Meus pais moram na Irlanda, então não os vejo com frequência. A gente tenta manter um telefonema por semana. Em um deles, contei para a minha mãe sobre os 9 estados que visitei no mês passado.

A primeira reação que ouvi foi: "Por que não o estado Y? Lá tem muito mais gente. Ou o estado X, que tem um potencial alcance maior?"

Veja, eu entendo que ela ficou feliz pelas minhas conquistas. Eu sei disso. E ela, como eu, também luta todos os dias para ser uma pessoa melhor. Mas naquele exato instante, na hora do telefonema, em vez de primeiro comemorar comigo, ela voltou àquele padrão antigo: não é suficiente. Como assim foram só 9 estados?

Aquilo me doeu. Fiquei remoendo durante dias. Um homem adulto, médico, com anos de terapia nas costas, remoendo uma frase dita ao telefone.

É por isso mesmo que estou aqui, em plena quarta-feira, escrevendo este texto para você ler amanhã.

Escrevendo, eu me lembrei de uma coisa que já sabia: não preciso da aprovação dela, nem da de ninguém, para me sentir bem-sucedido. Só que saber e sentir são coisas bem diferentes, e é na distância entre as duas que eu ainda tropeço.

Nós não somos as expectativas dos outros. Mas é muito difícil se lembrar disso.

E por que estou te contando tudo isso? Porque a prova de residência é o campo perfeito para florescerem todas essas questões espinhosas da nossa mente. A nota do simulado que nunca está boa. O colega que passou de primeira. O parente que pergunta se "ainda" não deu certo.

Por isso, eu te convido a ter a sua vida, as suas metas e as suas conquistas. Independentemente do olhar do outro. A validação tem que vir de dentro. (Sim, a revista Claudia tinha razão. Odeio admitir.)

Faça como eu. Faça terapia. Escreva. Cante. Dance. Sei lá o quê. Mas descubra uma forma de se lembrar de que, só de existir, você já é suficiente.

Um abraço de quem ainda está aprendendo,

Com carinho,

Cavarzan

Leia também

Newsletter · 13 de outubro de 2026Não leia esta newsletter se não estiver em um dia bom5 min de leitura ResenhaO Jeito Harvard de Ser Feliz: a felicidade vem antes da aprovação4 min de leitura ResenhaMindset: o aluno inteligente não existe4 min de leitura

Receba a próxima edição por e-mail

E as notícias do livro em primeira mão. Sem spam.

Assinar a newsletter