Mindset: o aluno inteligente não existe
Resenha do livro de Carol S. Dweck

Deixa eu te fazer uma pergunta desconfortável: você é inteligente?
Não responde ainda. Primeiro eu preciso te contar o que aconteceu com um grupo de crianças que ouviu essa palavra na hora errada.
A psicóloga Carol Dweck, de Stanford, deu a centenas de crianças uma série de problemas fáceis. Todas foram bem. Metade ouviu "você deve ser muito inteligente". A outra metade ouviu "você deve ter se esforçado muito".
Uma frase. Só isso.
Depois, as crianças puderam escolher o próximo desafio. As elogiadas pela inteligência preferiram o fácil, para não arriscar o rótulo. As elogiadas pelo esforço pediram o difícil. Quando veio um problema realmente pesado, o primeiro grupo desabou e passou a ir pior até nos fáceis. E, na hora de contar a própria nota para outras crianças, quase 40% delas mentiram para cima.
Um elogio transformou crianças comuns em pequenos mentirosos com medo de errar.
Eu li Mindset e nunca mais corrigi um aluno do mesmo jeito. Nem a mim mesmo.
Dois jeitos de ler uma nota ruim
O livro inteiro gira em torno de uma distinção. No mindset fixo, você acredita que a sua capacidade é um dado de fábrica. Você tem ou não tem. No mindset de crescimento, você acredita que ela se desenvolve com treino, estratégia e ajuda.
Parece papo de palestra. Agora coloca os dois na frente de um simulado ruim.
O mindset fixo lê a nota como um veredito: "eu não sou bom o suficiente para essa prova". E, se a nota é um veredito sobre quem você é, o mais seguro é parar de se expor. Você evita o simulado difícil, pula a correção, estuda o que já sabe.
O mindset de crescimento lê a mesma nota como um mapa: "é aqui que eu ainda erro". E mapa a gente usa.
A nota é idêntica. O que muda é o que você faz na segunda-feira.
O aluno inteligente não existe
É por isso que eu abro o capítulo de mentalidade do meu livro com a pergunta: será que existe "o aluno inteligente"?
Todo ano eu recebo gente que foi a melhor da turma a vida inteira e que trava na preparação para a residência. Não por falta de capacidade. Por excesso de rótulo. Quem sempre foi "o inteligente" tem muito a perder a cada questão errada, e passa a estudar para proteger a imagem, não para aprender.
E recebo gente que nunca foi destaque de nada e que sobe mês a mês, porque erra sem drama, corrige e volta.
Adivinha quem eu vejo com mais frequência na lista de aprovados.
A palavra que muda a frase
Tem um ajuste de linguagem que eu levei para a vida: acrescentar "ainda".
"Eu não sei cardiologia" é uma sentença. "Eu ainda não sei cardiologia" é um plano. A primeira fecha a porta. A segunda diz que tem trabalho pela frente e que ele é possível.
Sim, sim, sei que é bonito isso, mas é a mais pura verdade.
Esforço sozinho não resolve
Um cuidado que a própria autora faz questão de registrar: mindset de crescimento não é elogiar esforço a qualquer custo.
Esforço sem estratégia é só cansaço. O aluno que fez vinte mil questões do jeito errado se esforçou muito e continuou no mesmo lugar. Crescer exige tentar de outro jeito, pedir ajuda e mudar a ferramenta quando ela não está funcionando.
É exatamente a ponte entre este livro e tudo o que eu ensino sobre técnica de estudo.
Por que este livro está em tudo o que eu escrevo
Poucos livros mudaram a minha vida. Este é um deles. A ideia de que ninguém é a própria nota, que aparece em tantas das minhas newsletters, nasceu aqui.
Ele também mudou o jeito como eu escrevo. Eu parei de escrever para parecer inteligente e comecei a escrever para aprender em público, com os erros à mostra.
Antes do próximo simulado
Você vai fazer a próxima prova com um dos dois mindsets. Não existe a opção de ir sem nenhum.
A diferença é que um deles você escolhe, e o outro escolhe você. Quem nunca leu sobre isso costuma ir com o que veio de fábrica.
Este livro é a diferença entre passar o ano provando que é bom e passar o ano ficando bom. Eu sei qual dos dois candidatos eu não queria enfrentar.
Cavarzan