Afogando-se no raso
"Perdi o ano."
"Não adianta nada do que eu estou fazendo."
"Eu não vejo mais sentido em nada."
O áudio tinha uns dois minutos. A voz falhava no meio das frases. Desolada. Frustrada. Perdida. Tudo isso depois de um resultado ruim. Um resultado. Um.
Não era a aluna me mandando. Era uma mentora me encaminhando, preocupada. Muito preocupada, na verdade. E eu fiquei um tempo olhando para o celular antes de responder.
Hoje quero ter uma conversa difícil com você, caro leitor. Talvez você não se sinta pronto. Mas quem disse que estar pronto significa que vai doer menos?
Por inúmeras razões, hoje temos estudantes que foram do vestibular para a faculdade (alguns com um cursinho no meio) e da faculdade caíram direto na vida de prestar provas de residência. Até chegar aqui, viveram razoavelmente protegidos. Pais. Escola. Apoio. Um trilho que nunca quebrou. E nesse trilho, o valor da pessoa foi ficando intrinsecamente ligado (na cabeça dela, é claro) ao resultado que ela consegue. De uma maneira maniqueísta, o resultado é ela. Aquela nota ruim é ela.
Não estou dizendo que o sentimento não seja real. Não, não, não. O sofrimento e a dor são reais. O corpo sente fisicamente esse fracasso. Aperta o peito, tira o sono, embrulha o estômago.
Mas às vezes sinto que muitos de vocês ainda não viveram o suficiente para se frustrarem de verdade, para colecionarem vários "não" na vida. Não estou desejando ativamente que você passe por dificuldades. Mas se eu puder te dar um conselho, seria este: pelo menos uma vez, uma única vez, tenha uma decepção grande. Não estou falando de coisa simples. Estou falando de uma das grandes. Daquelas que, quando acontecem, você fica sem chão e a sua vida fica impossível de ser a mesma depois. Você acha que nunca mais vai se reerguer.
E se você está lendo isto com os olhos inchados, parabéns. Chegou a sua.
Porque não é que, quando você chega no fundo do poço, você percebe que tem chão lá? E desse chão, você se levanta.
O problema da primeira queda é que ninguém te contou do chão. Você desce achando que o poço não tem fim. Quem já caiu uma vez desce diferente: com medo, com dor, mas sabendo que lá embaixo existe um lugar para apoiar os pés. É essa a diferença entre quem tem casca e quem não tem. Casca não é insensibilidade. Casca é memória de chão.
E onde quero chegar tem um nome: tunelamento cognitivo.
Nome chique para algo que vejo todas as semanas. Quanto mais estresse a pessoa passa, mais a visão dela vai ficando focada, estreita e convergente. Um funil. A atenção inteira se fecha em cima daquele único ponto que dói, e tudo o que existe ao redor, as alternativas, as saídas, o contexto, simplesmente some do campo de visão. Não porque deixou de existir. Porque o túnel não deixa ver. A situação enfrentada ganha uma proporção descomunal em relação ao estímulo real. É isso que eu chamo de se afogar no raso: a água está na canela, mas de dentro do túnel ela parece o oceano.
Nisso tudo, é como se a pessoa estivesse no meio da tempestade, incapaz de ver que existe um céu limpo, azul e claro acima das nuvens. Nuvens que são (que rufem os tambores, meu povo) passageiras.
Deixa eu te perguntar uma coisa. Será mesmo que, quando você estiver morrendo, vai se lembrar da reprovação em uma prova de residência? Será mesmo que o valor inteiro da sua pessoa, da sua jornada neste planeta, vai se resumir a uma experiência de passar ou reprovar?
Eu preciso acreditar que, quando eu estiver morrendo com os meus 120 anos (sim, as gays duram mais, aceitem), eu vou me lembrar das vidas que toquei, das habilidades que aprendi, dos relacionamentos que construí, das histórias que ajudei a tecer. Se tem um benefício em ficar velho, é que você vai aos poucos colocando as coisas no seu devido lugar.
Não estou dizendo que a prova de residência não seja importante. Estou simplesmente te convidando a enxergá-la como ela é: um figurante em uma cena do filme da sua vida. Vai trocar algumas palavras com o personagem principal, a câmera vai dar um close, mas depois o filme segue. Porque a vida segue também.
Não tenho como provar isso, pelo menos não ainda, mas os meus alunos com os melhores resultados e os melhores prognósticos são aqueles que desapegam da necessidade de controlar as consequências das próprias ações ("minha nota vai subir ainda este ano?", "o que estou fazendo é suficiente para passar na USP?") e simplesmente estudam. Aceitam o processo como um todo e se entregam. Dão o seu melhor sabendo que esse momento é passageiro. E não se perdem nessa floresta estranha que é o ano da preparação. Eles ainda descansam. Têm "vida", sabe.
O mundo não vai acabar.
Você vai continuar vivendo. Tendo uma casa. Uma família que te ama. Um trabalho que permite ganhar muito mais do que 90% do Brasil. Há elementos bons sempre. Basta você querer encontrá-los.
O segredo, no fundo, eu acho que é amadurecer. Criar uma casca. Ter um propósito.
Sabe por quê? Porque o túnel estreita tudo, menos uma coisa: aquilo que você quer de verdade. Quando a parede aperta dos dois lados, o propósito é o pedaço de céu que continua visível lá na frente. Pequeno, longe, mas visível. E aí a pergunta muda. Deixa de ser "será que eu vou me reerguer?" e vira "o que é um, dois, três ou mais anos para chegar onde eu quero?".
Para quem quer de verdade, com todo o seu ser, essa conta fecha sozinha.
Será mesmo que você quer o suficiente?
Mas isso é uma outra conversa para outro dia.
Cavarzan
P.S.: eu simplesmente amei ler as histórias de vocês na última newsletter. Li absolutamente todos os depoimentos. Todos me tocaram em algo profundo. Vivemos e temos os mesmos problemas. Precisamos compartilhar cada vez mais nossos pensamentos e emoções, porque no fundo somos todos humanos. E essa é a graça, pelo menos é o que penso para poder continuar.