Mateus Cavarzan
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Newsletter · 8 de setembro de 2026

Não me deixe (sozinho) na pista de dança

Mateus Cavarzan4 min de leitura

Hello, ser humano em amadurecimento (sim, acordei inspirado).

Hoje eu vou fugir do roteiro. Não tem questão comentada, não tem tabela, não tem estatística de aprovação. Tem um clipe. Um que não sai da minha cabeça.

Semana passada assisti ao clipe de "Don't Leave Me on the Dancefloor", da Carly Rae Jepsen (uma das artistas mais subestimadas da nossa geração na minha opinião), e fiquei dias sem conseguir tirar aquilo da cabeça.

Preciso compartilhar com o mundo o que senti (e continuo refletindo enquanto escrevo essas palavras).

Cena do clipe: o homem deitado na cama, cercado de livros

O clipe inteiro é filmado como se fosse um filme dos anos 90. Grão na imagem, cor lavada, aquele jeito de fita gasta que me lembra minha infância milenial. E dentro desse filme tem um homem cuja vida está numa espiral pra baixo, tentando a todo custo segurar um relacionamento que já não existe mais.

Ele aperta. Suplica. Barganha. E quanto mais aperta, mais a coisa escorre pelos dedos dele.

Aí vem a cena: a namorada termina com ele. Por telefone.

Cena do clipe: o homem ao telefone, de cabeça baixa

Corte. Pista de dança. Um salão com pouca gente, ninguém interagindo com ninguém, aquela luz feia de clube vazio no meio da semana. A música começa a tocar.

E ele desmonta. Chora, se contorce, se entrega, dança como se aquilo fosse a última coisa que ele faria na vida. Uma catarse inteira, ali, numa pista vazia.

Cena do clipe: o homem dançando sozinho na pista

A gente nunca escolhe como a arte entra na nossa vida. Tem um detalhe que me atravessou com um trem em alta velocidade: a letra que ele está dançando pede, em bom português, [VERSO DA MÚSICA (PREENCHER NA ABA TWEAKS)].

Ele está pedindo garantia. Justamente a única coisa que ninguém, em lugar nenhum, pode dar pra ele. Tudo muda tão rápido no nosso mundo. O controle é uma ilusão. Só que enquanto pede, ele mesmo percebe que não faz sentido. A resposta é dançar. E se libertar. Recomendo muito que você veja essa cena.

Eu escrevi um roteiro da minha vida também.

A gente faz isso. É do ser humano. Escreve o filme da própria vida com o final já definido e depois briga com o filme quando ele resolve seguir outro caminho.

Passei por isso há pouco tempo. Perdi uma função que eu exercia há três anos. E não era só uma função: era como as pessoas me apresentavam, como me reconheciam, como eu me reconhecia. Estava colada na minha identidade. De repente, acabou. Eu não faria mais aquilo.

Doeu. Claro que doeu. Não vou romantizar e dizer que acordei no dia seguinte agradecendo ao universo.

Mas foi exatamente esse buraco que abriu espaço pra tudo que veio depois. A mentoria alçando novos voos. O meu livro que vai ser lançado em breve. O podcast com seus novos quadros. Inclusive esta mesma newsletter que você está lendo agora. Nada disso caberia na agenda do homem controlador que eu era alguns meses atrás. A perda não foi o preço do que veio depois. Ela foi a porta.

Sim, sim, sei que é bonito isso, mas é a mais pura verdade.

A pista sempre esteve vazia, porque as outras pessoas eram projeções. A música era e sempre será minha. Apenas minha.

No clipe, o homem de coração partido não esperou a pista encher.

Não esperou a plateia, a luz boa, o momento ideal, a certeza de que teria alguém na próxima música. As condições estavam ruins. Ele dançou assim mesmo. Dançou para ele. E ele apenas.

E durou o que a música durou. Três minutos. Depois a faixa acaba, as luzes acendem e a vida dele precisa seguir em frente. Ressignificada.

Valeu a pena. Valeu porque ele se entregou por inteiro, sem ficar negociando com o futuro no meio da dança.

E o que isso tem a ver com você?

Eu sei que soa estranho vindo de uma newsletter de residência médica. Mas eu vejo isso todo dia.

Vejo aluno que não consegue estudar direito porque está o tempo todo perguntando se vai dar certo. Se vai valer. Se vai passar esse ano. Ele quer a garantia antes de se entregar. E a garantia não vem. Então ele fica ali, parado na beira da pista, esperando uma condição ideal que nunca chega.

E o pior: quanto mais ele aperta esse relacionamento com a aprovação, mais longe ela fica.

Deixa o tio te falar uma coisa: a entrega vem antes da garantia. Sempre. Não existe um caminho em que você recebe a certeza primeiro e se dedica depois.

Você tem hoje. Tem esse ciclo. Tem essa música tocando agora.

Dança.

Talvez isso seja a diferença entre estar vivo e viver de verdade.

Continue saindo do lugar-comum (e dançando em lugares inusitados dentro da sua mente), Mateus

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