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Aviso dado no título. Se você ficou, vamos.
Fiquei horas remoendo o que escrever esta semana. Não sou falso. Poderia ter falado de qualquer tema de prova de residência, pedido ideias para a IA, feito o de sempre. Mas isso não seria escrever. Escrever, para mim, é o momento em que meus dedos entram no automático e eu simplesmente deixo a mente correr solta. As palavras saem uma atrás da outra, como água sob pressão.
O motivo de ter remoído tanto é simples: hoje serei extremamente pessoal.
Minha família é do interior de São Paulo. São José do Rio Preto, para ser exato. É daqui que escrevo agora, com a cidade amanhecendo pela janela, horas antes de voltar para a capital. Fazia sete anos que eu não pisava neste chão.
Tudo igual. A cidade, o mesmo calor de sempre, aquele ar gostoso de interior, as maritacas cantando ao fundo quando acordei. E, ao mesmo tempo, tudo diferente. Meu avô, falecido há sete anos. Meus primos, crescidos e fora da cidade. Minha avó, internada em uma casa de repouso para idosas.
É dela que quero falar hoje.
Alzheimer. Uma pessoa fragmentada.
Ela passou a ficar agressiva. Os terrores noturnos foram ficando cada vez mais frequentes. Presenciei um, uma única vez, e não sei como minha família conseguiu aguentar este tempo todo. Faz um mês que ela foi para a casa de repouso. Odeio este nome. Como são ingratas as palavras na nossa língua, destilando ironia de um jeito que só o português é capaz.
Fui visitá-la já com o estômago embrulhado, um engolir em seco, as palmas das mãos frias a despeito dos 40 graus que faziam lá fora.
Abandonada.
Uma palavra que ecoava como um bem-te-vi na minha cabeça. E, a cada eco, ela se transformava nas suas múltiplas variações. Abandonada. Abandono. Abandonou. Minha consciência pesada marcando o compasso.
A casa era de alto padrão. Enfermeiros 24 horas. Todo o conforto que ela poderia precisar. Menos o conforto que ela queria: a própria casa, a própria família.
Tive várias personalidades naquela tarde. Ora eu era o Mateus, neto. Ora o Sérgio, irmão dela. Ora o Clay, meu tio. Tudo rápido demais, instável demais. Palavras sem sentido, frases desconexas e, de repente, no meio da névoa, uma lucidez incrível.
Foi justo num desses clarões que ela se levantou, pegou a minha mão e disse que precisava (repare na escolha da palavra) me mostrar algo. Os olhos vidrados. Entre as rugas, uma mistura de medo. A outra mão abria e fechava no colo com força. Ela estava em perigo.
Perigo do quê?
Me conduziu até o quarto. Sentou na cama. Olhou para os lados, em alerta, como quem confere se a porta está fechada. Era um segredo. Da gaveta, tirou um caderno verde, simples, daqueles Tilibra de papelaria de bairro.
"Leia."
Páginas e mais páginas de uma mulher antes inteira, agora fragmentada.
Chorei. Não queria ter chorado, mas chorei.
Frases que se repetiam. Páginas rasgadas. A letra tremida.
“Onde está meu documento.”
"Tenho uma casa em Rio Preto perto do Beto."
"Ler esse pedaço. Muito doente."
"Tenho aposentadoria por favor estava doente."


Você sabe que a escrita, para mim, é um ritual de outro mundo. Eu me conecto com as palavras de uma maneira que não consigo explicar, desde pequeno. Ali, naquele quarto, entre lágrimas, percebi que ela estava fazendo o mesmo.
No limbo entre não estar ainda tão enferma para não entender nada e os clarões fugazes de lucidez, aquela escrita foi destilada naquelas páginas simples. Na letra de uma mente em desespero, ela se agarrava aos fatos que ainda restavam. Onde moro. Quantos filhos tenho. Que estou doente. Pedindo, clamando, implorando ajuda.
Fui pego, atravessado, atropelado por um trem de emoções em alta velocidade.
O que seria escrever, que não isso?
Todos os meus problemas, meus medos, minhas inseguranças ficaram pequenos. Tão pequenos como grãos de areia se esfarelando na minha mente.
Na saída, ela ficou do outro lado do portão. Tirei uma foto. Talvez não devesse ter tirado. O ângulo não estava certo. Ou estava, talvez. Você pode julgar por si mesmo o sentimento que essa foto evoca.

No Uber, voltei em silêncio. A ruminação já tinha começado. E dela foi fermentando algo que só consegui compreender agora, enquanto escrevo olhando Rio Preto amanhecer.
Quero viver. Quero... quero mais da vida, sabe? E quero que você também queira.
Algo clicou, estalou, explodiu dentro de mim.
Nada de ter medo de viver. Nada de me segurar. Nada de não ser quem eu sou (ainda mais em tempos sombrios como os nossos).
Saiba que a prova de residência, e tudo o que você estiver passando agora, é real e existe.
Mas é pequeno. Tão pequeno, mas tão pequeno, perto de tudo o que a vida pode te oferecer.
Se há algo que te convido a levar daqui hoje, é perspectiva. Perspectiva do que é importante.
Lá fora, as maritacas começaram de novo.
Cavarzan
P.S.: Antes de ir, um pedido. Cansei de escrever no escuro. Quero me conectar. Se algo aqui mexeu com você, me conta: publica no seu Instagram o que esta newsletter te fez sentir e me marca (@mateuscavarzan). Quero te encontrar aí, do outro lado da página. Quero saber que alguém leu. Nada de ter medo. Tanto para mim quanto para você. Palavras nascem para serem lidas.