O órgão mais sensível do corpo humano: o bolso
(e por que você não deve escutá-lo)
Este texto nasceu num fluxo de pensamento único, cheio de referências, num domingo de manhã, voltando das eleições.
Faz 10 anos que falo que vou transferir meu título. Todos os anos, nunca transfiro e preciso me deslocar 40 minutos para ir votar. Foi nesse trajeto, ao som de Lust for Life, da Lana Del Rey com The Weeknd, que as ideias que você vai ler agora se cristalizaram.
E todas elas giram em torno de uma pergunta que me fizeram há pouco tempo e que, hoje, acho que finalmente sei responder: "Mas isso dá dinheiro?"
Para chegar nela, vou precisar de um ditado antigo, de uma lata de lixo no Maine e de um clipe com o letreiro de Hollywood.
Existe, sim, alguma sabedoria inegável na antiga frase: o bolso é o órgão mais sensível do corpo humano. O dinheiro é, por vezes, o catalisador de várias mudanças de comportamento. Vejamos um exemplo prático: reciclar é bom, mas fica melhor ainda quando você ganha algo com isso, como incentivam alguns países. Na Irlanda, presenciei o contrário: lá você paga pelo lixo que produz. Resultado? As pessoas produzem menos.
Podemos saber que algo é bom e precisa ser feito, mas nada se compara a quando isso impacta o nosso dinheiro, que, em muitas visões, está atrelado ao nosso senso de liberdade (pelo menos de escolha).
O bolso é um ótimo professor para mudar hábitos. O problema começa quando a gente deixa ele escolher o caminho.
E por que resolvi falar de dinheiro hoje?
Porque tenho muito medo de para onde estou levando meus alunos.
De um lado, meu papel é ensinar a técnica de passar na prova: como estudar, como corrigir, como render mais com o tempo investido nos estudos. Do outro, o motivo pelo qual o aluno quer prestar a prova de residência para a especialidade X ou Y é indiferente. Ou pelo menos deveria ser. De novo: deveria ser. Mas hoje, a caminho das eleições, entendi que não é. Pelo menos não para mim, enquanto mentor.
A mentoria é, na sua essência, um encontro entre uma pessoa (o mentor), com sua trajetória, suas crenças e sua visão de mundo, e outra pessoa (o mentorado), que também tem sua trajetória única (me segurei aqui para não usar o adjetivo "singular", pelo trocadilho fácil). E o que sai dessa troca é sempre algo no meio de campo. Então não consigo deixar de levar meus pontos de vista para os encontros com meus alunos. E, muito menos, minhas experiências prévias.
Uma delas começa exatamente com aquela pergunta.
"Mas isso dá dinheiro?", me perguntaram quando comuniquei (hoje entendo que não precisava comunicar, mas enfim) que iria fechar meu consultório, encerrar minhas atividades médicas e me dedicar exclusivamente à educação médica. "Você não acha arriscado? E se você estiver apostando em algo que vai ruir nos próximos anos?"
Meu consultório particular em Alphaville estava no auge. Eu tinha recebido uma proposta de doutorado financiado pela Pfizer. Portas e mais portas se abrindo nos melhores hospitais de São Paulo.
Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.
Disse não.
Nunca foi pelo dinheiro para mim, de verdade. E eu acredito genuinamente no que vou falar agora. Se você achar que estou sendo hipongo demais, escolha sua, mas te convido a refletir comigo.
Quem realmente ganha dinheiro na nossa sociedade? Quem se destaca em relação aos demais, independentemente do ramo? Quem são as pessoas que "vencem" na vida?
Quase todas fizeram, no fundo, apenas uma coisa fundamental: fluíram no rio do entusiasmo.
Não estou dizendo que seja um caminho linear. Longe disso. É cheio de altos e baixos, de desafios (repare que não usei a palavra "problema" aqui). E o mais importante: fariam o que fizeram independentemente da promessa do dinheiro. É óbvio que o dinheiro podia fazer parte das expectativas delas. Mas nunca foi o fio condutor.
No mês passado, assisti a uma entrevista do Stephen King. Antes de Carrie, seu primeiro romance publicado, ele colecionava cartas de rejeição espetadas num prego na parede. Trabalhava numa lavanderia e escrevia de madrugada. E Carrie quase não existiu: ele jogou as primeiras páginas no lixo. Foi a esposa, Tabitha, quem as tirou de lá e o convenceu a continuar.
Ele continuou escrevendo, não porque seu foco era se tornar o escritor de terror e suspense sobrenatural mais famoso de todos os tempos, mas simplesmente porque aquilo o entusiasmava. Ele continuava fazendo, com zero insistência no resultado.
Insistência é diferente de expectativa.
Veja: lá na lavanderia, ele podia até ter alguma expectativa de que um dia a vida mudaria. Mas não insistia para que o cenário se concretizasse da única maneira que aquela versão dele achava possível. Décadas e muitos milhões de dólares depois, ele disse na entrevista que eu assisti que teria continuado escrevendo de qualquer jeito, simplesmente porque aquilo era o que o preenchia.
Percebe a diferença? Sutil, como todas as coisas importantes da vida.
O que me leva de volta aos atendimentos e à minha profunda tristeza: dar carros de corrida muito bons para alunos que estão dirigindo para o lugar errado, na expectativa de algo que, talvez eu queime minha língua, não vai preencher o vazio que sentem.
Muitos têm uma visão idealizada de algumas especialidades e, principalmente, do "estilo de vida" (me apavora essa expressão) que querem ter. Fico triste, porque sei que, para terem esse estilo de vida, a liberdade financeira que almejam e, intrinsecamente, a felicidade a que todos têm direito, eles precisam se conectar com aquela atividade.
No frigir dos ovos, falando um português muito claro para o órgão mais sensível do corpo humano: quem ganha dinheiro, dinheiro de verdade, é quem faz o que faz com o maior entusiasmo possível, no melhor das suas habilidades, e continuaria fazendo independentemente do resultado. Isso o mercado remunera. É isso que as pessoas querem, que os clientes de qualquer consultório buscam: conexão.
E o que nos conecta é o que nos traz felicidade. O dinheiro aqui é neutro, e continuará sendo neutro na vida desses alunos, porque estão escolhendo coisas erradas pelos motivos errados.
A doce e venenosa ironia disso tudo é que mesmo os que conseguirem, por outros caminhos, se destacar no mercado médico e ganhar a quantia X que querem vão perceber que continuam infelizes.
O bolso sente tudo. Mas não sabe para onde ir.
Como diria Laninha do meu coração: sim, somos mestres do nosso próprio destino, capitães das nossas próprias almas. (Curiosidade: o verso conversa com Invictus, poema de 1875 de William Ernest Henley, que termina com "I am the master of my fate, I am the captain of my soul". Mandela o recitava para os companheiros de prisão.) E não existe nenhuma forma de nos fazer deixar de existir dentro dessa luxúria (lust) pela vida que é fazer o que você gosta e se sentir bem com isso.
Fazer isso é extasiante e libertador ao mesmo tempo.
O clipe é extremamente visual (recomendo que você veja). Começa com o universo em expansão se abrindo dentro dos olhos da Lana quando ela começa a cantar. Ela sobe no letreiro de Hollywood na letra H, uma alusão à sua ascensão na fama, e se entrega ao universo pulando da última letra, a letra D, em êxtase, enamorada pela arte. Hollywood e a fama foram só secundários para que ela expressasse o seu mundo interno. Nunca foi pelo externo. Nunca será.

Bem, tenho zero insistência sobre se este texto vai ou não fazer sentido. Expectativas, tenho. Insistência, não. Para mim, escrevê-lo já basta.
E isso me preenche.
Cavarzan