Mateus Cavarzan
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Artigo de opinião

Barbie médica frustrada

Mateus Cavarzan9 min de leitura
Boneca Barbie descabelada e com a maquiagem borrada

Antes que me cancelem: Barbie aqui não tem gênero. Tem Ken médico frustrado em igual quantidade.

“Cavarzan, eu quero derma. É pela qualidade de vida. Quero meu consultório, minha agenda, meu horário.”

Recebo alguma variação dessa mensagem toda semana. Troca derma por oftalmo, otorrino ou psiquiatria e a frase é a mesma. E o que me chama atenção não é o sonho. É o motivo. Ninguém me escreve “quero dermato porque adoro doença bolhosa”. Escrevem “quero dermato porque quero uma vida”.

E de onde vem essa ideia de vida? Do celular. Mais especificamente, de um tipo de conteúdo que eu vou chamar pelo nome mais adiante.

Antes, os números. Porque, assim como no caso do edital da USP, metade da conversa está sendo feita com uma versão imaginária da realidade.

O que os números dizem de fato

Todos os dados abaixo são da Demografia Médica no Brasil 2025, da FMUSP com a AMB. Não é achismo meu.

Em dez anos, o número de escolas médicas no país foi de 252 para 448. São 48.491 vagas de graduação por ano, quase 80% delas em faculdades privadas.

Gráfico: evolução do número de cursos de graduação em medicina, de 2004 a 2024

Evolução do número de cursos de medicina, 2004 a 2024

Legenda: Em 2004 eram 143 escolas. Em 2024, 448. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.

Gráfico: evolução do número de vagas de graduação em medicina, de 2004 a 2024

Evolução do número de vagas de graduação em medicina, 2004 a 2024

Legenda: De 13.820 vagas por ano para 48.491. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.

Só que a residência não cresceu junto. De 2018 a 2024, o número de alunos matriculados em medicina subiu 71%, de 167,7 mil para 287,4 mil. O número de médicos residentes subiu 26%, de 37,7 mil para 47,7 mil.

Gráfico: alunos matriculados na graduação e médicos cursando residência, de 2018 a 2024

Alunos matriculados na graduação e médicos cursando residência, 2018 a 2024

Legenda: A barra da graduação cresce. A da residência quase não sai do lugar. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.

O resultado é este gráfico, que na minha opinião é o mais importante de todo o estudo para quem está prestando prova:

Gráfico: concluintes de medicina e vagas de R1 de acesso direto, de 2018 a 2024

Concluintes de medicina e vagas de R1 de acesso direto, 2018 a 2024

Legenda: Em 2024, 16.189 vagas de R1 de acesso direto para 32.611 formados no ano anterior. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.

Em 2018, faltavam 3.886 vagas de R1 de acesso direto para o número de formandos do ano anterior. Em 2024, faltaram 16.422. E, pelas vagas já autorizadas pelo MEC, o Brasil vai começar a formar mais de 42 mil médicos por ano.

Traduzindo: metade de quem se forma hoje não vai fazer residência de acesso direto no ano seguinte. Não porque é ruim. Porque não tem cadeira.

O funil das quatro

Agora vamos olhar exatamente para as quatro especialidades da mensagem lá de cima.

Vagas de R1 ocupadas em 2024, no Brasil inteiro: Dermatologia, 270. Oftalmologia, 519. Otorrinolaringologia, 234. Psiquiatria, 650. Somando as quatro: 1.673 vagas.

Conta de padaria. 1.673 vagas para 42 mil formandos por ano dá 1 em cada 25. Junta 25 colegas da sua turma numa sala. Apenas um vai conseguir passar. E olha que eu estou sendo generoso, porque nessa conta entram só os formandos do ano, sem os que ficaram de anos anteriores e vão prestar de novo. Isso sem contar que estou pegando todas as vagas do Brasil, e nem todo mundo está disposto a ir para o interior do interior do Brasilzão.

No ENARE 2026/2027, a concorrência preliminar fala a mesma língua: otorrino com 39 candidatos por vaga, dermato com 32, oftalmo com 29, psiquiatria com 26. A média geral do exame é 12. São 569 vagas nas quatro para 16.737 inscritos.

Não estou dizendo que é impossível. Todo ano alguém passa, e as pessoas que passam são gente como você. Estou dizendo que o número é este. Ninguém que vende o sonho no story mostra este número.

Para onde vão os outros 24

Essa é a parte que a internet médica não discute, e é aqui que a história muda de tamanho.

A Demografia contou 2.148 cursos de pós-graduação lato sensu voltados para médicos no Brasil. Adivinha quais são as especialidades com mais cursos?

Gráfico: cursos de pós-graduação lato sensu em medicina por especialidade, em 2024

Cursos de pós-graduação lato sensu em medicina por especialidade, 2024

Legenda: Endocrinologia em primeiro, Dermatologia em segundo, Psiquiatria em terceiro. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.

Dermatologia: 129 cursos de pós. Psiquiatria: 115. Para você ter noção da proporção, são 129 cursos de pós de dermato para 270 vagas de residência de dermato. Um curso de pós para cada duas vagas de residência. E 41% de toda essa pós é a distância.

O mercado entendeu o funil muito antes de você. Ele sabe que dos 25 da sala, 24 não vão passar em dermato. E tem um produto pronto para os 24: a pós, o curso de estética, a “formação” de fim de semana, o consultório “de dermato” sem residência de dermato.

Não me entenda mal. Tem muita pós excelente por aí que são pós residência-like, que tem carga horária igual de residência, com os alunos rodando junto com os residentes e tendo exatamente as mesmas atribuições.

Mas, não é nessas que o mercado está crescendo.

É aqui que entra o desserviço também. O influencer que vende o consultório de dermato como estilo de vida não está vendendo para quem vai passar nas grandes instituições. Ele está vendendo para quem vai sobrar. E quem vai sobrar compra e, se não houver orientação, vai comprar a pós ruim de final de semana.

De onde eu falo

Sou reumatologista. Já não faço mais consultório. Vivo de preparar gente para prova de residência. Ou seja, eu também ganho dinheiro com o sonho da residência. Quanto mais gente quer passar, mais o meu produto vende. Deixo isso claro para você ler o resto sabendo onde eu piso.

Também não estou falando de fora. Eu já fui o Ken lá do começo, com visões idealizadas sobre a vida de consultório.

O desserviço

Tem um tipo de conteúdo que você reconhece na hora. Consultório bonito, agenda cheia no story, “trabalho três dias por semana”, viagem no meio da semana, roupa branca impecável. Zero paciente de convênio aparecendo. Zero glosa. Zero mês de agenda vazia. Zero paciente que não voltou.

Não vou citar nomes. Não é mentira o que eles mostram. É recorte. O problema é o que o recorte esconde. E o problema maior é o que o recorte ensina: escolher especialidade pelo estilo de vida e não pelo trabalho.

Você não vai viver o story, meus amores. Você vai viver a terça-feira às 15h com a agenda pela metade. E se você escolheu dermato pelo story, a terça-feira vai te pegar sem defesa.

Uma ressalva importante sobre psiquiatria, porque ela não é a mesma bolha. A demanda por psiquiatra é real, crescente e não vai diminuir. O que é bolha é a versão que circula: “atendo de casa, pela tela, em 25 minutos, e ninguém morre”. Psiquiatria de verdade é paciente grave, é família no telefone, é risco, é urgência às 23h. Quem entra pela versão da tela descobre a outra no primeiro plantão. E não por acaso ela tem 115 cursos de pós na fila para os que não passaram.

O que o consultório é de verdade

Deixa eu te contar a minha versão, sem story.

Fiz centenas (não estou brincando) de infiltrações articulares na minha residência de Reumatologia na USP-SP. Centenas. Não vi e não tive nenhuma complicação.

Mas na minha primeira infiltração da vida fora, no meu consultório particular, todo lindo e maravilhoso em Alphaville, tive um paciente que intercorreu com uma artrite por deposição de cristais do próprio corticoide. Raro? Raríssimo. Mas aconteceu comigo, no meu consultório, com um paciente particular.

Ainda bem que sempre, em toda a minha vida, eu explico todos os riscos, por mais raros que sejam. O treinamento que tive nunca me deixou fazer diferente.

Fiquei mesmo com o cu na mão. Medo de aparecer no jornal, nas redes, no YouTube, de ser processado, enfim, tudo passou na minha cabeça.

Cadê aquele glamour todo da vida de consultório chique?

Zero.

Mas sempre gostei de gente e sempre dei o meu melhor para os meus pacientes. Eu acolhi, reavaliei o paciente, prescrevi o tratamento adequado e, no final, o paciente continuou vindo no ano seguinte e ficou muito chateado quando eu fechei o meu consultório para me dedicar de forma exclusiva à educação médica.

Sabe o que foi diferente?

Sempre gostei da atividade médica em si. Poderia estar em qualquer outro lugar, em um consultório de rua, e te juro que teria dado o mesmo nível de atendimento, porque eu me importo, sempre me importei e vou continuar me importando.

Sim, sim, sei que é bonito isso, mas é a mais pura verdade: ninguém posta a complicação. Ninguém posta os meses ou anos de agenda vazia antes do negócio engatar.

O consultório não é o refúgio da carreira. É o lugar onde a carreira fica mais exposta ao mercado. Você deixa de ter salário e passa a ter faturamento, e faturamento depende de gente escolher você. Todo mês. De novo.

E aqui está a minha tese, a que eu queria chegar desde o começo: essa bolha estoura no exato momento em que o médico percebe o trabalho que é ter um consultório de verdade. Não estoura na prova. Estoura depois. E quando o propósito não está claro, ele não sustenta a longo prazo. Quem entrou pelo story sai na primeira agenda vazia. Não porque é fraco. Porque nunca soube pelo que estava ali. Ou, pior ainda, entra sem a vontade real de ajudar os outros, e basta um paciente detrator para você ver a sua futura clientela fugir de você como o diabo foge da cruz.

Quem vai ter um consultório de sucesso

Não é quem escolheu a especialidade certa. É quem escolheu por um motivo que aguenta terça-feira.

Quem se dedica. Quem estuda o mercado de verdade: onde falta especialista, que convênio paga, que bairro tem demanda, o que o paciente daquela região precisa e não encontra. E, acima de tudo, quem trata bem o paciente e é genuinamente interessado nele.

Isso é rentável. Paciente bem tratado volta. Paciente bem tratado indica. Essa é a única mídia que sustenta um consultório por vinte anos, e nenhum influencer vai te vender porque ela não cabe num story.

Sim, dá dinheiro. Só que o dinheiro é consequência de um trabalho que você precisa gostar de fazer quando ninguém está filmando.

A última cena

A Barbie do filme, depois de conhecer o mundo real, poderia ter voltado para a Barbielândia. Escolheu ficar. E a última cena do filme é ela chegando, radiante, na consulta com a ginecologista. Ela escolheu o mundo que tem consultório de verdade, com paciente de verdade e boleto de verdade.

Se você vai escolher especialidade este ano, escolhe pela terça-feira. O story a gente grava depois.

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