Mudanças climáticas e saúde: o que diz o Guia de Bolso do Ministério da Saúde (2ª edição, 2026)
Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .
A segunda edição revisada do guia de bolso Mudanças Climáticas para Profissionais da Saúde, publicada pelo Ministério da Saúde em 2026, substitui a primeira edição de 2024, que era a tradução do guia da Opas adaptada ao SUS. O documento tem 202 páginas e foi reorganizado em torno de três fatores climáticos: extremos de temperatura (calor e frio), extremos de precipitação (chuvas intensas, enchentes, estiagem e seca) e poluição do ar. Cada sistema do corpo é discutido a partir desses três eixos, com populações em risco após cada fator climático; a seção de doenças transmissíveis é organizada por via de transmissão.
Para a prova, o que mais rende são as definições (onda de calor, enchente, inundação e alagamento, os três tipos de seca), a classificação das doenças relacionadas ao calor com a conduta inicial, os limiares de poluição do ar, as listas de grupos vulneráveis e vulnerabilizados e as doenças sensíveis ao clima. O quadro abaixo reproduz a classificação do calor; os cards seguem o texto do guia, com a página de cada afirmação.
Doenças relacionadas ao calor, do leve ao grave
| Quadro | Como se apresenta | Conduta inicial |
|---|---|---|
| Edema e miliária (leves) | Edema por vasodilatação cutânea, às vezes com rubor facial. Miliária rubra: pápulas ou pústulas vermelhas em pescoço, membros superiores, tronco e virilha, por obstrução dos ductos sudoríparos. | Local fresco e arejado; elevar os membros inferiores no edema, sem diurético; na miliária, tirar a roupa, deixar esfriar por evaporação e evitar cremes tópicos. |
| Cãibras pelo calor (leves) | Espasmos musculares após atividade física, sobretudo ao ar livre, com pele molhada e fria e temperatura corporal normal; depleção de líquidos e eletrólitos. | Local fresco, repouso, elevar os membros inferiores, alongamento e massagem, reposição oral de líquidos e eletrólitos. |
| Síncope pelo calor (moderada) | Tontura, ortostase e perda transitória da consciência logo após interromper a atividade física, por vasodilatação periférica, depleção de volume e queda do retorno venoso. | Local fresco, decúbito dorsal, elevar os membros inferiores, reidratação oral ou venosa; se a recuperação demorar ou houver risco cardiovascular, revisar medicamentos e monitorar. |
| Exaustão pelo calor (moderada) | Sede, cefaleia, fadiga, taquicardia, fraqueza, ataxia, síncope, náusea, vômito, diarreia, pele fria e úmida, temperatura central de 38 °C a 40 °C. | Local fresco, decúbito dorsal, membros elevados, resfriamento nas dobras, reidratação venosa ou oral; sem resposta em até 30 minutos ou com piora, exames e emergência. |
| Golpe de calor (grave) | Estado mental alterado, convulsões, coma, taquicardia, hipotensão, hiperventilação, pele úmida ou seca, temperatura central acima de 40 °C. É o que a população chama de insolação, mas não exige exposição ao sol. | Emergência: Samu 192, vias aéreas e ABCDE, local fresco, imersão em água fria ou compressas frias nas dobras, reidratação venosa e encaminhamento à emergência. |
25 flashcards para revisar
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O guia
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01
O que é o guia de bolso Mudanças Climáticas para Profissionais da Saúde, e quem o publica?
É um guia do Ministério da Saúde, pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente e pelo Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, com a Coordenação-Geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde (CGCLIMA). A 2ª edição revisada é de 2026, com 202 páginas, e se destina a profissionais de saúde, da assistência, da vigilância e da gestão, para reconhecer os impactos do clima na saúde e incluí-los no diagnóstico diferencial, na vigilância e na organização dos serviços.
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02
O que mudou da 1ª edição (2024) para a 2ª edição (2026)?
A 1ª edição, de 137 páginas, era a tradução do guia da Opas adaptada ao SUS, organizada por sistemas e, dentro de cada um, por alteração (taquicardia, hipertensão etc.), com efeitos colaterais de medicamentos e dados empíricos. A 2ª edição, de 202 páginas, foi reescrita para o contexto brasileiro: abre com conceitos fundamentais (calor e frio, chuvas e enchentes, estiagem e seca, poluição do ar), traz capítulos sobre atuação intrassetorial e equidade em saúde, organiza cada sistema pelos três fatores climáticos e acrescenta seções sobre doenças transmissíveis ampliadas, segurança alimentar e nutricional, acidentes e violências e imunizações e cadeia de frio, e amplia as orientações à comunidade em recomendações de cuidado por evento extremo.
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03
Que estruturas e planos federais o guia cita como base da resposta do SUS ao clima?
O restabelecimento do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) em 2023, o Plano Clima e, dentro dele, o Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima do Setor Saúde (AdaptaSUS). A Secretaria de Vigilância em Saúde, nome usado até 2022, passou a chamar-se Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, e em 2024 foi criada a CGCLIMA, responsável por planejar, coordenar e monitorar o AdaptaSUS.
Conceitos
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04
Como o guia define onda de calor e onda de frio?
Onda de calor: período prolongado de temperatura incomumente elevada, muitas vezes acima das médias históricas locais, por dois dias ou mais. Onda de frio: queda acentuada e persistente das temperaturas, no Brasil em geral associada a massas de ar polar. O calor causa desidratação, exaustão térmica, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, mais diarreias e mais mortes; o frio desencadeia hipotermia e agrava doenças respiratórias, cardiovasculares, metabólicas e infecciosas. O guia frisa que ondas de frio continuarão ocorrendo mesmo com o aquecimento global.
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05
Qual é a diferença entre enchente, inundação e alagamento?
Enchente: elevação temporária do nível da água em rios ou canais, sem transbordamento. Inundação: a água transborda do leito e atinge áreas próximas, como planícies e várzeas. Alagamento: acúmulo de água da chuva em vias e áreas urbanas, em pontos isolados, por falha de drenagem ou saturação do solo. Entre os impactos, o guia lista leptospirose, hepatites, doenças diarreicas agudas, infecções respiratórias, afogamento, eletrochoque e soterramento, além da saúde mental e dos riscos dos abrigos (superlotação, violência, ruptura de vínculos).
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06
Estiagem e seca são a mesma coisa? Quais são os três tipos de seca?
Não. Estiagem é a redução natural e temporária de chuvas, de ciclos sazonais, de duração curta a moderada, com impactos menores por adaptação prévia. Seca é a redução anormal e prolongada das precipitações, que compromete água para consumo, higiene, alimentos e serviços. Os três tipos, que podem coincidir: seca meteorológica (meses a anos de chuva abaixo da média, muitas vezes com calor), seca hidrológica (vazão dos rios e reservatórios abaixo da média, de instalação mais lenta) e seca agrícola (solos secos por chuva escassa e evaporação alta).
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07
Quais são os principais poluentes atmosféricos citados pelo guia, e qual é o limite da OMS para o material particulado fino?
Material particulado fino (MP2,5), ozônio (O3), dióxido de nitrogênio (NO2) e outros compostos tóxicos (na seção respiratória, os compostos orgânicos voláteis). No Brasil, um dos principais fatores de emissão são os incêndios florestais e as queimadas, intensificados na seca. A OMS recomenda MP2,5 abaixo de 5 µg/m³ de média anual, mas o guia afirma que não há nível seguro de exposição; em 2021, 99% da população mundial vivia acima do recomendado. Cada aumento de 10 µg/m³ de MP2,5 pode equivaler a até 5,5 cigarros fumados passivamente por dia.
Calor
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08
Como o guia classifica as doenças relacionadas ao calor por gravidade?
Leves: edema pelo calor, cãibras musculares associadas à atividade física e rash pelo calor (miliária rubra). Moderadas: desmaio relacionado à atividade física (síncope pelo calor) e exaustão pelo calor. Grave: golpe de calor. A desidratação pode fazer parte do quadro, mas não é uma entidade nosológica em si.
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09
O que diferencia a exaustão pelo calor do golpe de calor?
Na exaustão há disfunção termorreguladora leve, hipovolemia e disfunção multiorgânica precoce: sede, cefaleia, fadiga, taquicardia, fraqueza, ataxia, síncope, náusea, vômito, diarreia, pele fria e úmida e temperatura central de 38 °C a 40 °C. No golpe de calor a disfunção termorreguladora é grave, com extravasamento de endotoxinas, resposta inflamatória sistêmica, apoptose e disfunção de múltiplos órgãos: estado mental alterado, convulsões, coma, taquicardia, hipotensão, hiperventilação, pele úmida ou seca e temperatura central acima de 40 °C.
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10
Qual é a conduta inicial na exaustão pelo calor e no golpe de calor?
Exaustão: levar a local fresco e arejado, decúbito dorsal, elevar os membros inferiores, resfriar as regiões de dobras, reidratar por via venosa ou oral; se não responder em até 30 minutos ou piorar, avaliação laboratorial e encaminhamento à emergência. Golpe de calor é emergência: acionar o Samu 192, manejar vias aéreas, fazer o ABCDE, levar a local fresco, imergir o corpo em água fria ou gelada ou aplicar compressas frias nas dobras, iniciar reidratação venosa e encaminhar à emergência. O Box 3 lembra que antitérmicos, como o paracetamol, e medicações de ação central, como benzodiazepínicos, podem piorar o quadro.
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11
Por que o guia adota golpe pelo calor e colapso pelo calor como equivalentes de insolação, e qual é o sinal de alerta do Box 3?
Porque insolação sugere exposição direta ao sol, mas o quadro ocorre em qualquer ambiente quente e mal ventilado, com ou sem radiação solar. O guia trata golpe pelo calor, colapso pelo calor e insolação como nomes do estado mais grave das doenças relacionadas ao calor, com falência da termorregulação e risco de morte. Na onda de calor, confusão mental com temperatura axilar acima de 40 °C deve levar a considerar estresse por calor e até insolação; a sobrevivência depende do resfriamento imediato, com imersão em água fria ou compressas geladas em axilas, virilhas e nuca.
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12
Que medicamentos podem agravar o estresse por calor e a insolação?
Álcool, anfetaminas, cocaína, antiadrenérgicos, antiarrítmicos, anticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos, antiparkinsonianos, antipsicóticos, betabloqueadores, bloqueadores do canal de cálcio, diuréticos, inibidores da colinesterase e simpaticomiméticos. Na seção de saúde mental, o guia acrescenta que antipsicóticos e estabilizadores de humor interferem na termorregulação, por isso o guia pede atenção às prescrições durante esses episódios.
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13
Como o calor lesa o rim, e o que é a doença renal crônica de etiologia não tradicional?
O estresse por calor redistribui o sangue para a pele, reduz o fluxo renal e causa isquemia e hipóxia tubular, agravadas pela ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, pelo estresse oxidativo e pela inflamação; hipovolemia, rabdomiólise e coagulação intravascular disseminada também lesam o rim. O Quadro 3 lista nefrolitíase, insuficiência renal aguda, insuficiência renal crônica, DRC de etiologia não tradicional e distúrbios hidroeletrolíticos do colapso pelo calor. Na DRC não tradicional, o quadro aponta como possível causa o estresse térmico ocupacional com inflamação, desidratação repetida com hiperosmolaridade, rabdomiólise subclínica e temperatura corporal elevada com uricosúria e cristalúria, típica de trabalhadores em ambientes quentes.
Frio e poluição
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Por que o frio aumenta a mortalidade cardiovascular?
O frio provoca vasoconstrição, aumento da resistência vascular periférica e da pressão arterial, hipercoagulabilidade, maior viscosidade sanguínea, alterações eletrolíticas e ativação simpática, o que favorece arritmias, infarto e AVC, além de comprometer a barreira epitelial das vias aéreas. A mortalidade cardiovascular tem padrão sazonal, com elevação no inverno, e a combinação de frio com poluentes, em especial NO2, intensifica o risco em idosos e pessoas com comorbidades.
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15
Como a poluição do ar leva a eventos cardiovasculares?
Os caminhos principais são estresse oxidativo e inflamação, passagem do material particulado para a circulação sistêmica e desbalanço autonômico. A exposição crônica gera vasoconstrição e hipertensão, resistência à insulina, dislipidemia com disfunção do HDL, disfunção endotelial e remodelamento com aterosclerose; a exposição aguda provoca vasoconstrição, prejuízo da vasodilatação coronariana, ativação trombótica, menor fibrinólise e aumento do tônus simpático, com síndrome coronariana aguda, AVC, arritmia e descompensação de insuficiência cardíaca. Em 2021 a poluição do ar causou 8,1 milhões de mortes no mundo, segundo fator de risco de morte.
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Que ferramenta de triagem o guia propõe para identificar risco pela poluição do ar?
Um questionário de três perguntas, ainda em validação: na sua casa queima-se combustível sólido (lenha, carvão, esterco, resíduos agrícolas, querosene ou lixo) para cozinhar, aquecer ou iluminar? Você reside ou trabalha em centro industrial urbano? Você passa tempo perto de trânsito intenso (estradas, sinal de trânsito, mora na rua, motorista)? Há ainda a pergunta sobre exposição a queimadas florestais ou agrícolas. Uma resposta afirmativa a qualquer delas se associa a aumento do risco cardiovascular e, nas três primeiras, abre perguntas complementares.
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17
Quais máscaras protegem da fumaça das queimadas, e o que elas não fazem?
Em ambientes abertos, durante eventos agudos como queimadas, o guia recomenda respiradores N95, R95 ou PFF2, que filtram material particulado mas não protegem contra gases. Máscaras cirúrgicas ou de tecido não servem para isso. A N95 só funciona bem ajustada ao rosto, o que é difícil em crianças, por isso escolas em áreas de queimadas devem ser orientadas sobre filtragem do ar (filtros HEPA). Em alerta de poluição, orientar permanência em casa, evitar fogão a lenha, lareira e tabaco dentro de casa e manter os ambientes ventilados.
Doenças sensíveis ao clima
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Como o clima altera a transmissão das doenças vetoriais, e quais são as arboviroses de maior importância no guia?
Pela disponibilidade de criadouros (chuva e uso do solo), pela sobrevivência e reprodução dos vetores (temperatura), pela frequência das picadas (umidade e chuva) e pelo tempo de incubação do patógeno no vetor, acelerado pelo calor. A capacidade de transmissão da dengue pelo Aedes aegypti e pelo Aedes albopictus aumentou 8,9% e 15,0% em 2018 em relação a 1950, e a OMS projeta até 2050 cerca de 200 milhões de pessoas a mais em risco de malária e 520 milhões de dengue. Arboviroses destacadas: dengue, Zika e chikungunya (Aedes aegypti e albopictus), febre amarela (Haemagogus, Sabethes e Aedes aegypti) e febre do Oropouche (Culicoides paraensis, o maruim). Vetoriais não virais: malária, doença de Chagas, leishmaniose e esquistossomose.
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19
Quais zoonoses o guia destaca como sensíveis ao clima, e qual é a relação entre chuva e leptospirose?
Leptospirose, febre maculosa, hantavirose e doença de Chagas. A leptospirose é transmitida pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados, sobretudo roedores; chuvas intensas e enchentes deslocam os roedores para áreas residenciais e aproximam a bactéria das pessoas. No Brasil, a cada 20 mm de chuva há incremento médio de até 31,5% nas internações por leptospirose. A febre maculosa, por Rickettsia transmitida por Amblyomma sculptum e Amblyomma aureolatum, tem incidência baixa, mas letalidade que pode chegar a 60% quando o diagnóstico é tardio.
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20
Como seca e enchente afetam as doenças diarreicas e de transmissão hídrica e alimentar?
As doenças diarreicas agudas são a segunda causa de morte em menores de 5 anos, segundo a OMS. Secas prolongadas aumentam o risco de diarreia em menores de 5 anos em países de baixa e média renda, pela falta de água potável e de saneamento; enchentes severas e longas também aumentam o risco, com efeito maior quando precedidas de seca, por comprometer a qualidade da água e os sistemas de tratamento. O Quadro 8 lista os agentes: bactérias por toxina pré-formada (Bacillus cereus, Staphylococcus aureus) e gastrointestinais (Vibrio, Salmonella, Campylobacter, Shigella, E. coli e outras), vírus (norovírus, rotavírus), protozoários (Toxoplasma, Cryptosporidium, Giardia, Cyclospora, Entamoeba) e helmintos.
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21
Doenças de transmissão direta entre pessoas também sofrem influência do clima?
Sim. Migrações forçadas, insegurança alimentar e hídrica, colapso do saneamento e aglomeração em ambientes fechados nos períodos de chuva ou frio favorecem a transmissão. O Quadro 9 lista influenza (sazonalidade por temperatura e umidade), covid-19, hepatite A e diarreias virais (falhas de saneamento em chuva intensa ou seca), entre outras. O Box 4 alerta que abrigos temporários após enchentes aumentam o risco de tuberculose e de infecções respiratórias por superlotação, ventilação ruim e mofo.
Populações e serviços
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22
Como o guia distingue populações vulneráveis de populações vulnerabilizadas?
Vulnerabilidades intrínsecas são biológicas, fisiológicas ou etárias: crianças e idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, transtorno mental grave, deficiência intelectual, dependência de álcool ou drogas, acamados, em cuidados paliativos, indígenas menores de 5 anos e indígenas isolados ou de recente contato. Vulnerabilidades socialmente produzidas caracterizam grupos vulnerabilizados, cuja vulnerabilidade está no contexto, não no indivíduo: mulheres, população LGBTQIA+, negros, indígenas, povos e comunidades tradicionais, pessoas em situação de rua, populações do campo, das águas e das florestas, moradores de periferias e ilhas de calor, de áreas de alagamento ou costeiras, trabalhadores ao ar livre, expostos a queimadas (bombeiros, brigadistas) ou ao tráfego (motoristas), e pessoas sem acesso a ambientes climatizados.
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Quais desfechos gestacionais e perinatais o guia associa ao calor, e por que a gestante tolera pior o calor?
Parto prematuro, natimorto, baixo peso ao nascer (menos de 2.500 g), diabetes gestacional, ruptura prematura de membranas, anomalias congênitas, distúrbios hipertensivos e eventos cardiovasculares no parto; a exposição também reduz o número de néfrons do feto, com risco renal e pressórico ao longo da vida. Na gestação, o débito cardíaco e o volume plasmático aumentam, há calor do metabolismo fetal e mais gordura; quando a temperatura ambiente supera a central, a vasodilatação cutânea e o suor podem reduzir o fluxo uterino e umbilical, e essas respostas ficam atenuadas em hipertensão, hemorragia, sepse e diabetes. Gestantes com menos de 21 ou mais de 35 anos podem ser mais suscetíveis, sobretudo com comorbidades; negras e indígenas são desproporcionalmente afetadas.
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24
O que o guia recomenda para proteger a cadeia de frio das vacinas em eventos climáticos extremos?
A maioria das vacinas deve ficar entre 2 °C e 8 °C, e o calor excessivo faz perder potência, enquanto o congelamento abaixo de 2 °C compromete a eficácia de algumas vacinas; a interrupção de energia por ondas de calor, tempestades e enchentes é uma das principais causas de perda de imunobiológicos no Brasil. O guia pede centrais de rede de frio climatizadas nas três esferas, equipamentos robustos com monitoramento eletrônico contínuo, alarme e redundância, microplanejamento com parcerias intersetoriais e planos de contingência. A OMS estima, entre 2030 e 2050, cerca de 250 mil mortes por ano por desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico atribuíveis à crise climática.
Na prática
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Em uma frase: o que o aluno precisa levar do guia de bolso para a prova?
As mudanças climáticas agem por três vias (extremos de temperatura, extremos de precipitação e poluição do ar) e atingem de forma desigual os grupos vulneráveis e vulnerabilizados; o profissional deve reconhecer e tratar as doenças relacionadas ao calor, resfriando de imediato o golpe de calor, incluir o clima no diagnóstico diferencial e na notificação, e orientar a comunidade com as medidas de cada evento extremo.
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Fonte
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. Mudanças climáticas para profissionais de saúde: guia de bolso. 2. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 202 p. ISBN 978-65-5993-932-9. Edição anterior: 1. ed., 2024, 137 p. PDF integral do guia (gov.br)
Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.