Rastreamento do câncer colorretal com FIT: a diretriz brasileira de 2026, dos 50 aos 75 anos, a cada dois anos
Por Mateus Cavarzan, médico. Publicado em . Conferido na fonte original em .
Em março de 2026, o Ministério da Saúde levou à consulta pública as primeiras Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do Câncer de Cólon e Reto, elaboradas pelo INCA e avaliadas pela Conitec. A proposta é um programa organizado: adultos assintomáticos de risco padrão, dos 50 aos 75 anos, fazem o teste imunoquímico fecal (FIT) a cada dois anos, e quem tem resultado positivo vai para a colonoscopia. Em agosto de 2026, a Portaria SAES/MS nº 4.642 incluiu o FIT de rastreamento na tabela de procedimentos do SUS, com a mesma faixa etária e a mesma periodicidade.
A diretriz tem oito recomendações sobre o exame, graduadas pelo sistema GRADE, além de recomendações para a implementação do programa organizado. Para a prova, os pontos são o método (FIT, e não o teste de guaiaco), o ponto de corte de 50 ng/mL, as idades de início e fim, o intervalo bienal e o que fazer depois de uma colonoscopia normal. Os cards abaixo seguem o texto do relatório de recomendação submetido à consulta pública, que é a versão disponível, e a portaria da tabela do SUS. A versão final da diretriz ainda não foi localizada em publicação oficial.
A diretriz em cinco pontos
| Ponto | O que a diretriz recomenda | Força e base da recomendação |
|---|---|---|
| Quem rastrear | Adultos assintomáticos, de ambos os sexos, com risco padrão, dos 50 aos 75 anos. Sintomas (sangramento, alteração do hábito intestinal, anemia ferropriva, perda de peso) tiram a pessoa do rastreamento e levam à investigação pelo PCDT. | Início aos 50 e fim aos 75 anos: recomendações condicionais, com evidência de certeza moderada e viabilidade. |
| Método | Pesquisa de sangue oculto nas fezes, e o teste imunoquímico fecal (FIT) como método, quantitativo ou qualitativo. | Sangue oculto: forte, certeza moderada. FIT: forte, certeza alta no enunciado (a avaliação GRADE no corpo do texto diz moderada). Quantitativo ou qualitativo: condicional, baseada em viabilidade. |
| Ponto de corte | FIT positivo a partir de 50 ng/mL, o que corresponde a cerca de 10 µg de hemoglobina por grama de fezes (sensibilidade de 80% para câncer e de 31% para adenoma avançado). | Forte, com certeza alta no enunciado (a avaliação GRADE no corpo do texto diz moderada), aceitabilidade e viabilidade. |
| Periodicidade | FIT a cada dois anos. Resultado negativo: reconvocar em 2 anos enquanto estiver na faixa etária. | Condicional, com evidência de certeza baixa, aceitabilidade e viabilidade. |
| FIT positivo | Colonoscopia para avaliação diagnóstica. Se a colonoscopia for completa e de qualidade, repetir só depois de 10 anos, sem FIT nesse intervalo, enquanto a pessoa seguir assintomática e sem novos fatores de risco. | Forte, baseada em aceitabilidade e viabilidade. |
24 flashcards para revisar
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A diretriz
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01
Quem elaborou as Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do Câncer de Cólon e Reto, e em que etapa elas estão?
O INCA (Divisão de Avaliação de Tecnologias e Divisão de Detecção Precoce), a pedido do próprio instituto, com painel de 34 especialistas de 15 instituições em agosto de 2025. O Comitê de PCDT da Conitec recomendou o texto na 149ª reunião e o relatório foi à Consulta Pública nº 20/2026, em março de 2026. A versão final ainda não foi localizada em publicação oficial.
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02
Qual a população-alvo da diretriz, e o que é risco padrão?
Adultos assintomáticos, de ambos os sexos, com risco padrão: sem diagnóstico prévio de câncer colorretal, pólipos adenomatosos ou doença inflamatória intestinal, e sem diagnóstico pessoal ou história familiar de síndromes genéticas de alto risco, como síndrome de Lynch e polipose adenomatosa familiar.
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03
Paciente com hematoquezia, anemia ferropriva ou mudança do hábito intestinal. Entra no rastreamento?
Não. As recomendações não se aplicam a pessoas sintomáticas. Elas devem ser avaliadas para excluir câncer avançado e, na suspeita, encaminhadas ao serviço especializado, independentemente do intervalo desde o último exame de rastreamento, conforme o PCDT do adenocarcinoma de cólon e reto.
Idade
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04
Com que idade o rastreamento começa, e por que não aos 45 anos?
Aos 50 anos (recomendação condicional, certeza moderada e viabilidade). Os ensaios que compararam o FIT com exames endoscópicos estudaram pessoas de 50 a 74 anos; só 3 de 23 diretrizes internacionais começam antes dos 50; e o efeito absoluto cresce com a idade (número necessário para rastrear de 2.655 entre 45 e 59 anos, contra 492 entre 60 e 80 anos). No Brasil, a incidência abaixo de 50 anos estava estável até 2025.
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05
Com que idade o rastreamento termina, e qual o argumento?
Aos 75 anos (recomendação condicional, certeza moderada e viabilidade). Acima dessa idade o risco de eventos adversos da colonoscopia sobe: ida à emergência (OR 2,01), hospitalização (OR 3,08), perfuração (OR 5,25) e sangramento (OR 2,07). Em estudo observacional, o rastreamento reduziu o risco de câncer de 70 a 74 anos, mas não de 75 a 79.
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06
Existe alguma situação em que o rastreamento pode ir além dos 75 anos?
A diretriz cita que, segundo diretrizes internacionais, a extensão pode ser considerada até os 85 anos em casos individualizados: idoso com boa condição funcional, sem comorbidades significativas, expectativa de vida de 10 anos ou mais e nunca rastreado.
O teste
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07
Qual é o desfecho que justifica o rastreamento com sangue oculto nas fezes?
A redução da mortalidade específica por câncer colorretal, demonstrada em quatro ensaios clínicos randomizados. Nenhum ensaio mostrou redução da mortalidade geral, mas a diretriz explica que esse não é o desfecho adequado, porque o câncer colorretal é uma fração pequena de todas as mortes.
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08
Por que o FIT, e não o teste de guaiaco (gFOBT)?
Na revisão da Cochrane, a sensibilidade para câncer colorretal foi de 89% com o FIT contra 59% com o gFOBT, e para adenoma avançado, 33% contra 15%. A especificidade não teve diferença estatística (94% e 98% para câncer; 93% e 94% para adenoma avançado). A cada 100 pessoas com câncer, o FIT deixa de identificar 24 e o gFOBT, 61. A recomendação do FIT é forte; o enunciado diz certeza alta, mas a avaliação GRADE no corpo do texto diz moderada.
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09
Quais as vantagens práticas do FIT sobre o gFOBT?
Usa anticorpo contra a globina humana, por isso não exige restrição alimentar; basta uma amostra, em vez de coleta em três dias; e é mais específico para sangramento do trato digestivo baixo, porque a globina é degradada no trato superior. Tudo isso favorece a adesão.
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10
FIT quantitativo ou qualitativo: o que a diretriz recomenda?
Qualquer um dos dois (recomendação condicional, baseada em viabilidade). Dos 58 registros de FIT na Anvisa em março de 2025, 45 eram qualitativos. O quantitativo permite ajustar o ponto de corte à capacidade de colonoscopia, é automatizado e elimina a variação entre observadores; parece mais sensível para neoplasia avançada. A escolha segue a realidade local.
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11
Qual o ponto de corte do FIT, e a que ele corresponde em µg/g?
50 ng/mL, para testes qualitativos e quantitativos (recomendação forte). Equivale a cerca de 10 µg de hemoglobina por grama de fezes, a unidade usada nos programas populacionais. É o corte de maior sensibilidade: 80% para câncer e 31% para adenoma avançado, com especificidade de 91% e 93%. Cortes maiores perdem sensibilidade (66% a 73% para câncer).
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12
Anticoagulantes, aspirina e anti-inflamatórios interferem no FIT?
Os dados são discordantes, mas há estudos que relatam possível interferência de anticoagulantes orais de ação direta, aspirina e anti-inflamatórios não esteroidais. Por precaução, a diretriz orienta interrompê-los antes do teste, quando a interrupção não representar risco ao paciente.
FIT ou endoscopia
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13
FIT anual ou colonoscopia única para iniciar o rastreamento? O que mostrou o estudo TARGET-C?
Ensaio chinês com 19.373 pessoas de 50 a 74 anos. A adesão foi de 99,3% com o FIT e de 42,3% com a colonoscopia. No texto principal, a colonoscopia detectou mais câncer (OR 1,30); o apêndice do mesmo relatório traz adesão de 94% ao FIT e OR 2,27 sem significância estatística. A diretriz recomenda iniciar pelo FIT: é simples, barato, não invasivo, sem preparo nem sedação, e exige menos infraestrutura.
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14
FIT bienal ou retossigmoidoscopia única? O que mostraram os ensaios noruegueses?
Adesão maior com o FIT bienal (58,5% contra 51,5%), mais detecção de câncer (OR 1,87 após a terceira rodada de FIT) e menos eventos adversos (0,1% de sangramento ou perfuração no grupo FIT com colonoscopia nos positivos, contra 0,3% na retossigmoidoscopia). Certeza alta para os três desfechos. Recomenda-se o FIT.
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15
Qual a evidência da colonoscopia como método de rastreamento citada pela diretriz?
Não há ensaio randomizado de colonoscopia com desfecho de mortalidade; a evidência é indireta, dos ensaios de retossigmoidoscopia, e da análise por protocolo do NordICC (Polônia, Noruega e Suécia), com redução estimada de 31% na incidência e de 50% na mortalidade por câncer colorretal.
Periodicidade
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16
Qual o intervalo do FIT, e qual a base dessa escolha?
A cada dois anos (recomendação condicional, certeza baixa). Não há ensaio ou revisão comparando FIT anual com bienal. As principais evidências de eficácia do sangue oculto vêm de ensaios bienais, não há prova conclusiva de que o anual seja melhor, e o bienal tem melhor adesão e custo-efetividade nos programas nacionais, como o do Reino Unido.
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17
O que mostrou a coorte italiana de rastreamento bienal com FIT?
Redução da incidência de câncer colorretal de 33% em homens e 21% em mulheres, e da mortalidade de 65% e 54%, respectivamente.
Depois do FIT positivo
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18
Qual o exame de confirmação depois de um FIT positivo, e por que não a retossigmoidoscopia?
Colonoscopia (recomendação forte, baseada em aceitabilidade e viabilidade). Todas as diretrizes internacionais que abordam o método de confirmação a recomendam; é o padrão-ouro e permite remover pólipos no mesmo exame. Em modelagem com dados de quatro ensaios, a colonoscopia reduziu a incidência em mais 6,9% e a mortalidade em mais 7,6% em relação à retossigmoidoscopia.
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19
A colonoscopia após o FIT positivo foi completa e normal. Quando repetir, e o paciente volta a fazer FIT?
Se a colonoscopia foi completa e de qualidade (visibilidade adequada, preparo, retirada de pólipos quando presentes), repetir só depois de 10 anos, desde que a pessoa siga assintomática e sem novos fatores de risco. Nesse intervalo não há indicação de FIT, que é destinado a quem ainda não fez colonoscopia.
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20
O que fazer se a colonoscopia mostrar pólipos adenomatosos ou lesão suspeita de câncer?
Pólipos adenomatosos: seguir a conduta específica para o tipo de lesão, que está fora do escopo da diretriz. Lesão suspeita de câncer: confirmar pelo exame anatomopatológico e seguir o PCDT do adenocarcinoma de cólon e reto para estadiamento, tratamento e seguimento.
Programa organizado
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Qual a diferença entre rastreamento oportunístico e organizado, e qual a diretriz propõe?
No oportunístico, o convite acontece numa consulta por outro motivo ou por demanda da pessoa, e as evidências sobre idade e periodicidade costumam ser ignoradas. No organizado há convocação ativa da população-alvo na faixa etária e no intervalo recomendados, reconvocação, controle do seguimento e monitoramento da qualidade. A diretriz propõe o organizado, que é mais eficiente e reduz iniquidades.
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22
O que o programa precisa garantir em comunicação com a população?
Pressupõe um sistema de informação ligado à identificação da população-alvo. As recomendações, todas condicionais com certeza baixa: convocação ativa e individual a cada rodada; reconvocação de quem não atendeu; comunicação dos positivos sobre as próximas etapas; aviso aos negativos de que serão reconvocados em 2 anos; seguimento de quem não completou a investigação; e integração com o Registro de Câncer onde houver.
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23
O que a diretriz exige em governança e integralidade do cuidado?
Documentos dos gestores definindo responsabilidades, orçamento, metas e quem coordena, treina e audita; monitoramento por indicadores pactuados, divulgados anualmente, incluindo cobertura, adesão e qualidade das colonoscopias; e pactuação de referência e contrarreferência para confirmação diagnóstica, ressecção de lesões pré-malignas e tratamento do câncer.
No SUS
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24
O que a Portaria SAES/MS 4.642/2026 mudou na tabela do SUS?
Incluiu o procedimento 02.02.04.020-8, pesquisa de sangue oculto nas fezes por teste imunoquímico fecal (FIT) para rastreamento do câncer colorretal: exclusivo para o rastreamento bienal de homens e mulheres assintomáticos de 50 a 75 anos, na atenção básica, financiado pelo PAB, quantidade máxima 1, sem uso para investigação de sintomáticos. O código antigo (02.02.04.014-3) teve a descrição alterada: passa a ser a pesquisa de sangue oculto por diferentes métodos e técnicas destinada ao rastreamento do câncer colorretal, e, para assintomáticos de 50 a 75 anos, deve-se registrar o código novo do FIT.
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Fonte
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Conitec. Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto (CCR): relatório de recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública nº 20/2026. Elaboração: Instituto Nacional de Câncer (DATS e DIDEPRE/CONPREV). Brasília, março de 2026. 65 p. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de 2026. Inclui procedimento e altera atributos de procedimento da Tabela de Procedimentos do SUS. Diário Oficial da União, 10 ago. 2026, Seção 1, p. 60. PDF do relatório preliminar (gov.br/conitec)
Material de estudo para provas de residência médica. Não substitui a leitura da diretriz nem define conduta para um paciente específico.