Mateus Cavarzan
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Newsletter · 27 de outubro de 2026

Navegar é preciso.

Mateus Cavarzan4 min de leitura
Mateus Cavarzan de pé na areia da Praia do Patacho, em Alagoas, na maré baixa, sob céu azul com nuvens

Olá, ser humano que também anda precisando de um recomeço (sim, escrevo esta com areia no pé).

2026 tem sido um ano muito desafiador para mim.

Fazia tempo que eu não me sentia eu mesmo. Minha cabeça já não era mais minha, por assim dizer. Era um cômodo cheio de gente falando ao mesmo tempo, e nenhuma dessas vozes era a minha.

Eu precisava me desconectar de tudo e de todos. Ainda mais depois dos acontecimentos das últimas duas semanas na minha vida pessoal. Já fazia algum tempo que uma voz insistia lá no fundo, uma pulsão, por assim dizer, repetindo que eu precisava sair. Precisava navegar, como diria Fernando Pessoa.

De última hora, peguei minha trouxa de roupa e fui-me a um dos meus lugares favoritos do planeta: Praia do Patacho, Alagoas. Minha terceira vez na região.

O que eu fui fazer lá, você deve estar se perguntando. Passeios? Não. Andar de boogie? Não. Turistar? Não.

O que eu fui fazer, então?

Absolutamente nada.

Sempre fico no mesmo hotel, com uns chalés isolados e privativos. A praia é espetacular e não tem quase ninguém nela. É o mais absoluto silêncio. Eu e o mar azul de Alagoas. A maré de manhã é tão baixa que você consegue andar quilômetros para dentro do oceano, com a água nos tornozelos, como se o mar tivesse aberto caminho só para você.

Pessoa caminhando com a água nos tornozelos na maré baixa da Praia do Patacho, com o horizonte ao fundo

São nesses momentos que me conecto com algo maior.

Venho passando por uma série de lutos difíceis e confesso que minha cabeça ficou toda bagunçada, com as prioridades nos lugares errados. É muito difícil, no olho do furacão, conseguir dar um passo para trás e olhar as coisas sob uma nova óptica. No olho do furacão a gente não enxerga o furacão. Só sente o vento.

Ali, sob o sol de Alagoas, simplesmente todas aquelas vozes angustiadas na minha cabeça pararam. Silêncio total. E é apenas nesse silêncio que a voz interna, antes abafada, consegue ser escutada.

Somos pequenos, gente. Mas tão, tão pequenos quanto um dos grãos de areia que ainda estão presos no meu pé enquanto escrevo este texto, olhando um céu tão, mas tão estrelado que parece coisa de filme. O vento balança os coqueiros aqui perto, como se falasse comigo, em uma língua que só eu conseguiria entender.

O que eu quero para a minha vida?

O que eu quero alcançar antes de morrer?

O que eu quero fazer para que a minha vida tenha propósito?

Muito engraçado como a nossa cabeça funciona. Ali, naquele momento, com o pezinho na areia e olhando os pescadores distantes, a vontade de escrever veio com tudo. Como uma porta sendo escancarada depois de tanto tempo acumulando pressão.

Estou para lançar um livro sobre como estudar para a prova de residência. Não sei se vai dar certo. Não sei o que as pessoas vão falar. Demorei três anos para terminar. E uma parte de mim estava demorando ainda mais para admitir uma coisa, mas chegou a hora: quero escrever mais.

E uma confissão, daquelas que a gente sussurra antes de falar bem alto: sou escritor.

Por muito tempo tive vergonha de falar isso. De admitir isso para mim mesmo. Mas aqui estou. Prazer, meu nome é Mateus Cavarzan e sou médico e escritor. Não necessariamente nessa ordem, porque sou um só. Não fico trocando de personalidade quando troco de mesa.

O medo paralisa. Nossa, como ele paralisa! Por que temos tanto medo de tentar coisas novas? De ir em direções nunca navegadas? Porque tememos o que os outros vão falar, o que os outros vão pensar, o que os outros vão dar valor ou não.

Mas o vento e o mar me reensinaram algo. Algo que estava escondido dentro do meu ser: tudo isso não importa. Nunca importou, na verdade.

Quando queremos algo de verdade, fazemos pelo próprio processo. A Isabel Allende, que acabou de ganhar o Prêmio Planeta, o mais valioso da literatura em língua espanhola, falou exatamente isso. Ela disse que escrever, para ela, é como se apaixonar. Você não planeja se apaixonar, você não cobra nada em troca. Simplesmente acontece, e você vai no fluxo. Se esforça, sim. Mas sem cobrar resultado. Você se entrega e vai com tudo.

Gostaria muito que você pensasse nisso também quando o assunto é a prova de residência. Já conversamos, algumas newsletters atrás, sobre como é necessário ter um propósito. O que quero te convidar a fazer hoje é um passo além: se entregar ao processo. Se entregar de corpo e alma a algo que você realmente quer, sem exigir um resultado.

É paradoxal, eu sei. Quanto mais forçamos algo a acontecer, mais distante ele fica. Quando soltamos, é quando ele vem. Sim, sim, sei que é bonito isso, mas é a mais pura verdade.

Soltar não significa deixar de estudar. Soltar significa dar o seu melhor e deixar que o Universo faça o restante.

Navegar é preciso. Viver também.

Coqueiro inclinado sobre o mar à noite, com a lua cheia refletida na água

Cavarzan

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