Usando o passado para prever o futuro (sem recorrer à Mãe Dinah ou à Márcia Sensitiva)
Semana passada foi, talvez, uma das semanas mais difíceis da minha vida. Além da viagem para Rio Preto e de tudo que aflorou lá (assunto da nossa última newsletter), perdi um dos meus gatinhos: Tango. Comecei a escrever este texto sobre ele. Não consegui. As lágrimas não deixaram, e eu ainda não estou pronto para canetar e transmutar o que preciso. Peço desculpas por isso. Hoje quero focar em algo que distrai a minha cabeça e que, por sorte, é um assunto que eu amo: previsão do futuro na prova de residência.
Nós, como sociedade, amamos ter insights sobre o futuro. Nossa cultura sincrética é cheia disso: búzios, tarô, astrologia, quiromancia. Quando eu era pequeno, ficava fascinado com as histórias da minha vó, que ainda criança ia a cavalo até os assentamentos ciganos no interior de São Paulo para ler o seu futuro. Eu imaginava a estrada de terra, a menina em cima do cavalo, a tenda, as mãos abertas sobre a mesa. Nós tentamos encontrar uma ciência em ver o futuro com o que quer que esteja na nossa frente: estrelas, cartas, pedras. E sou suspeito para falar, porque adoro essas coisas místicas.
Mas o que quero cutucar em você hoje transcende isso. Quero te ensinar a usar uma questão do passado, de uma banca que tem padrão, para aumentar suas chances de brilhar no dia da prova. Sem incenso.
Para começar, preciso falar de um cenário que vejo todos os anos e que virou queixa frequente nos primeiros atendimentos da mentoria:
"Eu estava fazendo 80 a 85% nas provas em casa. Na prova oficial, fiquei com 70%. O que eu fiz de errado?"
Claro que esse cenário tem fundo multidimensional, com várias razões possíveis. Mas a principal é o que eu chamo de dissociação desempenho casa-prova. E a raiz dela está na falta da verdadeira correção crítica, a peça central da newsletter de hoje.
Fazer todas as provas antigas com os olhos cegados pelo passado só aumenta suas chances de passar naquelas provas, daqueles anos. Na ausência de uma máquina do tempo, você não pode estudar para passar na USP-SP de 2023. Nananinão. Você precisa usar a USP-SP de 2023 para passar na USP-SP de 2027.
Mas como?
Deixa eu te mostrar na prática, com as cartas na mesa.
Peguei a bariátrica na USP-SP. Complicações de cirurgia bariátrica caíram em todos os seis anos do Acesso Direto, de 2021 a 2026. Sete questões. E quase nunca a mesma resposta.
Olha o que aconteceu entre 2025 e 2026. O cenário é idêntico: primeiro dia de pós-operatório de bypass gástrico, paciente taquicárdica. Quem corrigiu a prova de 2025 com os olhos cegados decorou a lição: taquicardia no primeiro dia de pós-operatório de bariátrica é atelectasia. Chegou em 2026, viu a mesma cena, marcou atelectasia com a tranquilidade de quem já tinha visto aquele filme. Errou. O gabarito era sangramento da anastomose.
Repetir questão não é repetir resposta.
O que mudou foi o detalhe. Em 2025 (questão 61), a paciente tinha FC de 113, saturação de 92%, murmúrio diminuído nas bases e estava deitada. Em 2026 (questão 28), a paciente estava descorada, com FC de 130 e PA de 100x80. É a mesma carta. Só que invertida. E quem joga tarô sabe: carta invertida muda a leitura inteira.
Agora vem a parte boa. Se você pega a bariátrica como epicentro e abre o zoom, o mapa do que já caiu aparece organizado pelo tempo:
- primeiros dias: sangramento da anastomose (2026) e atelectasia (2025);
- semanas a meses: estenose da anastomose (2022);
- anos: hérnia interna (2023), anemia ferropriva (2024), coledocolitíase (2026).
E aí você se pergunta: cadê a fístula? A complicação mais clássica da bariátrica nunca foi gabarito no Acesso Direto. Apareceu como alternativa errada em 2025 e em 2026, e foi resposta em três questões do R+ de 2026. Está batendo na porta. Junto com ela: Wernicke (caiu no R+ Cirurgia 2026, em nível de R1), TEP (distrator no AD 2025, profilaxia no R+ 2025 e 2026) e as deficiências tardias de vitamina D e cobre (R+ Clínica). E duas que nunca caíram em nenhuma prova da USP-SP: úlcera marginal e dumping.
Agora me diz: se a USP-SP 2027 trouxer, de novo, uma paciente no primeiro dia de pós-operatório de bariátrica com taquicardia, qual vai ser a resposta?
Não sei. Ninguém sabe. Mas eu sei quais são as respostas possíveis, sei qual detalhe do enunciado separa uma da outra e sei quais ainda não caíram. Isso não é bola de cristal. É probabilidade.
O cerne da correção crítica de verdade, que sim, vai demandar um investimento (repare na minha escolha de palavras), é usar a questão que você está corrigindo como âncora do seu raciocínio probabilístico sobre o que pode cair.
Sempre parta do epicentro em direção à zona de expansão.
- Ache o cenário que se repete.
- Liste todas as respostas possíveis para ele.
- Estude as que ainda não caíram.
E, obviamente, ao fazer isso, em especial nesta reta final, atualize sua ferramenta de revisão (e aqui você já sabe que estou atrás de você berrando "flashcards" na sua orelha).
É isso que eu faço e é isso que treino com meus alunos na mentoria.
Agora imagina fazer isso, com calma, claro, com todas as provas da sua banca.
O conteúdo da prova de residência é muito grande. Mas não é infinito.
Um efeito colateral desejado dessa técnica é uma sensação. Não existe garantia nenhuma, mas você não estudou só as questões dos últimos anos: a partir delas, você estudou as principais nuances dos temas, em especial dos mais importantes. E você está pronto. Pronto para voar.
É essa crença, essa bruxaria, por assim dizer, que é gostosa de ter ali na hora da prova. É crença, não arrogância. A certeza de que você deu o seu melhor e de que agora é só sentar e executar. Claro que aspectos inéditos, doenças inéditas, podem surgir. Mas isso vai ser a exceção da sua prova, não a regra.
Então, vamos jogar tarô com as questões da sua prova de residência.
Você vai me agradecer.
Cavarzan
P.S.: Um fato aleatório para sua ciência. Nas minhas noites sem dormir desta semana, eu tinha duas opções: ficar remoendo coisas que eu não poderia mudar ou ser produtivo enquanto o sono não vinha. Escolhi a segunda. Criei no meu site (mateuscavarzan.com) uma seção de atualizações com os temas do PDF da MedCof já com flashcards prontos para você usar como base (e não copiar cegamente) nos seus baralhos. Se você usa Anki, dá para baixar direto. Depois, se quiser mandar um feedback, aceito.
P.S.2: Vocês viram o clipe novo da Olivia Rodrigo com a Chappell Roan? Babadeiro...