Mateus Cavarzan
← Todas as escritas
Newsletter · 3 de novembro de 2026

E se eu precisar tentar de novo? Sim, e daí?

Mateus Cavarzan4 min de leitura

Por que não somos quem queremos ser?

Ah, Cavarzan, sai pra lá, eu sou exatamente quem eu quero ser.

Uhum, senta lá, Cláudia, porque quero te convidar (depende de você querer) a refletir um pouco comigo.

Escrevo hoje em plena segunda-feira de Finados. A prova do HIAE está acontecendo neste exato instante. Já tivemos grandes provas nesta temporada: BOS, HCPA, UFCSPA, ENAMED, as PUCs... Pode ser que você esteja sentindo que não vai dar conta. E tudo bem.

Mas eu sei qual pergunta fica martelando na sua cabeça quando a luz apaga. Ela não aparece no simulado nem no grupo da turma. Aparece no travesseiro.

E se eu não passar? E se eu precisar de mais um ano?

O que significa um ano a mais de estudo?

Para muita gente, significa vergonha. O almoço de domingo com a tia perguntando "e aí, passou?". O story do colega de faculdade de jaleco novo, crachá de R1, legenda emocionada. A sensação de que todo mundo andou e você ficou parado no mesmo lugar, olhando a fila passar.

Agora deixa eu fazer uma conta de padaria com você. Uma carreira médica dura, com sorte, uns 35, 40 anos. Um ano a mais de preparação é menos de 3% disso. Três por cento. Pergunta pra qualquer R2 se, no meio do plantão, alguém quer saber em qual tentativa ele passou.

Ninguém pergunta. Ninguém lembra. Nem ele.

Então por que dói tanto?

Porque a gente não sofre pelo ano. A gente sofre pela distância entre quem é e quem acha que já deveria ser. Lá atrás, em algum momento, você escreveu um roteiro: formar com tal idade, passar de primeira, na instituição tal... E cada desvio desse roteiro parece prova viva e ardente de que tem algo errado com você.

Aí está a resposta para a pergunta do começo. Não somos quem queremos ser porque queremos ser o resultado, e não o processo. Queremos a identidade de residente sem ser, ainda, a pessoa que faz as 40 questões numa terça-feira chuvosa em que nada deu certo.

Queremos o crachá sem a obra.

E é aqui que vou recorrer a uma das maiores filósofas da contemporaneidade: Ariana Grande. (Sim, você leu certo.)

Cena do clipe de Yes, and?, de Ariana Grande: figura cinza como uma estátua cobre os olhos com as mãos enquanto pessoas ao redor olham e comentam

Ariana tem uma música chamada "Yes, and?". Ela lançou num momento em que meio mundo palpitava sobre a vida dela: relacionamento, corpo, escolhas, estilo musical. E a resposta dela, em vez de uma longa justificativa, foi um dar de ombros. Sim, e daí, meu bem? A vida é minha. O tempo é meu.

Pois é. E se eu precisar tentar de novo? Sim. E daí?

Mas presta atenção, porque esse "e daí" tem uma pegadinha boa. No teatro de improviso, "yes, and" é a regra de ouro. Você aceita a cena que te deram, por mais estranha que seja, e constrói em cima dela. Não discute com a cena. Não paralisa esperando outra. Aceita e acrescenta.

Sim: a prova foi difícil.

Sim: talvez não seja este ano.

E: o que eu construo a partir daqui?

O "e daí" não é descaso. Não é desistir de ajustar o que não funcionou (e quase sempre tem algo que não funcionou, meus amores, senão a mentoria não existiria). É tirar das costas o peso do julgamento alheio para sobrar energia para o trabalho de verdade.

Quem gasta tudo se defendendo do "e aí, passou?" não tem combustível para estudar melhor.

Deixa o tio te falar: um ano a mais não significa absolutamente nada para os outros. Já parou para pensar nisso?

Mesmo aquela tia recém-saída do manicômio que vai lançar aquela famigerada pergunta, logo mais, irá se esquecer de você, porque ela tem mais fofocas para ficar em dia. O suposto olhar de julgamento de um colega que passou vai demorar 15 segundos, porque logo depois ele estará pensando na própria vida.

Como diria o professor Gelson da GO: “Mona, você não é tão importante assim”.

Fazemos uma tempestade na nossa cabeça com a possibilidade de mais um ano quando na verdade o que nos dói é encarar os outros. Ou melhor, a versão julgadora dos outros. Mas o segredo é você lembrar que ela dura pouco, tão pouco que nem vale a pena ficar pensando nela.

Você é o protagonista da sua vida.

Então, se hoje bateu a dúvida, se o HIAE de agora ou alguma das provas anteriores te deixou com aquele gosto amargo, quero que você treine a frase. Em voz alta, se tiver coragem.

E se eu precisar tentar de novo?

Sim. E daí?

Cavarzan

P.S. Falando em ser protagonista da própria história: no dia 11/11, às 17h, vou fazer uma live no YouTube com o tema "Top 5 coisas para que 2027 seja o ano da sua aprovação". Se quiser ser lembrado (e receber alguns materiais que vou liberar por lá), entra na nossa comunidade do WhatsApp.

Leia também

Newsletter · 27 de outubro de 2026Navegar é preciso.4 min de leitura Atualizações médicasO que mudou na medicina em 2026, em flashcardsBaralhos prontos para o Anki ResenhaHábitos Atômicos: 1% por dia e a aprovação que ninguém vê chegando5 min de leitura

Receba a próxima edição por e-mail

E as notícias do livro em primeira mão. Sem spam.

Assinar a newsletter